{"id":11132,"date":"2012-03-02T06:34:00","date_gmt":"2012-03-02T08:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/cinecasulofilia-mostra-de-tiradentes-2012\/"},"modified":"2012-03-02T06:34:00","modified_gmt":"2012-03-02T08:34:00","slug":"cinecasulofilia-mostra-de-tiradentes-2012","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/cinecasulofilia-mostra-de-tiradentes-2012\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Mostra de Tiradentes 2012&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-5PSY611XG38\/T1Ah4uKd-iI\/AAAAAAAAEh8\/eRKvsBl77zI\/s1600\/preparativos_para_a_mostra_de_cinema_de_tiradentes620.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"480\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/preparativos_para_a_mostra_de_cinema_de_tiradentes620.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Ap\u00f3s um longo inverno, <b>a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cr\u00edtico, professor de cinema e cineasta Marcelo Ikeda <\/b>est\u00e1 de volta. Hoje com um panorama da mostra de cinema realizada no final de janeiro na cidade mineira de Tiradentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como sempre, <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">coluna publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>Mostra de Tiradentes 2012<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Assim como no ano anterior, a mostra de curtas em Tiradentes dividiu as obras em duas sess\u00f5es: a Panorama e a Mostra Foco. Esta \u00faltima, competitiva, reuniu dez curtas-metragens em destaque no evento.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Se Tiradentes ganhou destaque nos \u00faltimos anos por real\u00e7ar as inven\u00e7\u00f5es formais de uma nova gera\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro, respirando ares de uma renova\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, neste ano, especialmente pela mostra de curtas, ficou n\u00edtida a vontade da curadoria de contrapor essa tend\u00eancia.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os dez curtas da Mostra Foco foram, em sua esmagadora maioria, filmes narrativos, de dramaturgia tradicional. Como o pr\u00f3prio cat\u00e1logo da mostra afirma, \u201cs\u00e3o filmes que n\u00e3o resvalam na administra\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos e sensa\u00e7\u00f5es, mas (&#8230;) s\u00e3o filmes aplicados na constru\u00e7\u00e3o de cenas.\u201d Ou ainda, \u201c\u00e9 interessante notar que o panorama do curta-metragem brasileiro hoje, longe de ser um para\u00edso de ousadia e inven\u00e7\u00e3o formal, \u00e9 onde g\u00eaneros e temas que h\u00e1 pelo menos 30 anos est\u00e3o longe do cinema brasileiro de longa-metragem ressurgem com impressionante desenvoltura\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As palavras-chave aqui parecem ser \u201cg\u00eaneros\u201d e \u201ctemas\u201d, em substitui\u00e7\u00e3o a \u201cc\u00f3digos\u201d e \u201csensa\u00e7\u00f5es\u201d. A quest\u00e3o \u00e9 que para investir nessa aposta de \u201cmudar os rumos da mostra\u201d, a curadoria parece atropelar os pr\u00f3prios filmes, que n\u00e3o d\u00e3o conta dos conceitos dos curadores. Essa \u201caposta\u201d tem dois problemas principais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De um lado, os pr\u00f3prios \u201cc\u00f3digos\u201d e \u201csensa\u00e7\u00f5es\u201d explorados por diversos curtas produzidos neste ano n\u00e3o simplesmente repetem os conceitos apresentados pelos curtas anteriores, como se fossem meras emula\u00e7\u00f5es ou dilui\u00e7\u00f5es de uma tend\u00eancia contempor\u00e2nea, ou ainda, como se o cinema contempor\u00e2neo fosse simplesmente homog\u00eaneo. Ou seja, os realizadores que possuem, ao longo de anos, um trabalho coerente mais ligado a \u201cum cinema de fluxo\u201d correm o risco de ficar de fora porque \u201cest\u00e3o no contrafluxo das tend\u00eancias curatoriais\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda, a curadoria deixa impl\u00edcita uma distin\u00e7\u00e3o quase antag\u00f4nica entre um e outro cinema, entre um cinema \u201cde c\u00f3digos e sensa\u00e7\u00f5es\u201d e outro \u201cde g\u00eaneros e temas\u201d. Ou ainda, \u201cum cinema de fluxo\u201d e \u201cum cinema de cenas\u201d. Ao inv\u00e9s de propor examinar as fronteiras dessa suposta dicotomia, a curadoria apostou exageradamente num \u201ccontrafluxo\u201d.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acredito que essas dicotomias, ou ainda, esses antagonismos, pouco acrescentam ao panorama do curta-metragem brasileiro atual, ainda mais tendo em vista que os curtas apresentados n\u00e3o conseguem estar \u00e0 altura da aposta da curadoria. Ou seja, passou a impress\u00e3o de que as op\u00e7\u00f5es da curadoria foram mais uma recusa do cinema de fluxo do que essencialmente uma aposta na reciclagem do cinema de cenas. Ou seja, a curadoria optou por uma via negativa que, pelos curtas apresentados, n\u00e3o conseguiu se confirmar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sim, porque uma vez que se aponta para um \u201ccinema de g\u00eaneros e temas\u201d, a pergunta que naturalmente se segue \u00e9: como esses g\u00eaneros e temas s\u00e3o desenvolvidos atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias de encena\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de que forma esses pressupostos s\u00e3o encenados? Como as cenas s\u00e3o desenvolvidas, como o ritmo narrativo \u00e9 articulado, de que forma esses curtas escapam do lugar-comum ou das estrat\u00e9gias narrativas mais convencionais, como o espa\u00e7o \u00e9 integrado \u00e0 narrativa, como o trabalho de atores ou a representa\u00e7\u00e3o dos corpos escapa dos fetiches do g\u00eanero?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A resposta, em grande parte desses curtas, \u00e9 infelizmente frustrante. Um exemplo est\u00e1 no trabalho de dire\u00e7\u00e3o de atores, que foi um dos \u201cfocos\u201d dessa mostra, dada a homenagem a Selton Mello e a debates sobre o tema na pr\u00f3pria mostra. Ao contr\u00e1rio, pelos curtas, o desenvolvimento dos personagens est\u00e1 envolto em caricaturas e clich\u00eas. Nos curtas, os atores ainda s\u00e3o vistos com base em seu desenvolvimento psicol\u00f3gico, numa dramaturgia mais tradicional. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 um trabalho de corpo mais arrojado, aproximando o trabalho de dramaturgia de um Artaud ou Grotowski, por exemplo.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entre n\u00f3s, dinheiro, curta de Renan Rovida, \u00e9 realizado por um grupo de teatro. N\u00e3o se trata de naturalismo: tudo \u00e9 artificial, grosseiro mesmo. A recusa pelo bom gosto \u00e9 certamente uma aposta est\u00e9tica do curta. Acontece que o desenvolvimento da dramaturgia \u00e9 por demais caricato: os personagens s\u00e3o meros representantes de classe, joguetes de situa\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas pelo diretor para o improviso dos atores.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como num palco, eles se deslocam, mas seu corpo, sua voz e seus trejeitos, acompanhados por uma c\u00e2mera que simula um document\u00e1rio, n\u00e3o consegue aprofundar ou desenvolver suas premissas. Tudo j\u00e1 est\u00e1 dado pela cartela inicial, que o curta ir\u00e1 apresentar de forma reiterativa, como um grande pastiche de si mesmo. Ou seja, a elogi\u00e1vel espontaneidade dos atores n\u00e3o conseguiu dar vida ao filme porque n\u00e3o existe uma proposta de encena\u00e7\u00e3o que d\u00ea vida aos personagens.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O mesmo tom de pastiche pode ser identificado em Jiboia, de Rafael Lessa, dessa vez com uma produ\u00e7\u00e3o muito mais esmerada. \u00c9 curioso ver que diversos cr\u00edticos associaram esse curta com Douglas Sirk ou mesmo Rainer Werner Fassbinder, sem se ater ao que \u00e9 essencial nesses cineastas: o melodrama como um ensaio pol\u00edtico, seja pelo exerc\u00edcio da luz, no primeiro, ou pela revisita\u00e7\u00e3o do melodrama, no segundo, n\u00e3o meramente como \u201cexerc\u00edcio p\u00f3s-moderno de dilui\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos\u201d, mas como proposta pol\u00edtica altamente subversiva. Em suas cores quentes e seus contornos narrativos exagerados,\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jiboia parece dialogar mais com um certo Almodovar, mas certamente nunca com Fassbinder: sua ader\u00eancia ao cinema de g\u00eanero sem nenhum descolamento de suas estrat\u00e9gias discursivas o torna uma tentativa bem feita, mas sem for\u00e7a, certamente curiosa dentro do panorama do curta brasileiro atual mas muito mais pr\u00f3xima de um festival como Gramado do que de Tiradentes. O trabalho de corpo ou de voz da dupla de protagonistas femininas mant\u00e9m-se sempre fiel a um desenvolvimento dramat\u00fargico tradicional, sem nuances ou ambiguidades.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse tom da curadoria de \u201crecusa\u201d de um certo cinema, mais do que afirmando uma outra via, est\u00e1 berrantemente expresso na sele\u00e7\u00e3o de Queren\u00e7a, de Iziane Mascarenhas. Iziane n\u00e3o \u00e9 uma novata: realizou, entre outros, O C\u00e9u de Iracema, um interessant\u00edssimo curta de decupagem. Queren\u00e7a dialoga com o j\u00e1 desgastado subg\u00eanero do canga\u00e7o, t\u00edpico do cinema nordestino. Essa op\u00e7\u00e3o quase retr\u00f3grada nitidamente se afasta da aposta de um cinema contempor\u00e2neo cearense jovem, cristalizado no Alumbramento, mas que n\u00e3o se limita a ele, que recusa as representa\u00e7\u00f5es tradicionais do sert\u00e3o e do canga\u00e7o no cinema nordestino.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 preciso observar que mesmo um talento jovem como Petrus Cariry ir\u00e1 dialogar com esses c\u00f3digos mas jogando-os numa dire\u00e7\u00e3o menos tradicional (seu \u00faltimo filme tem o sert\u00e3o mas com um trabalho de tempo e espa\u00e7o que o aproxima de um cinema contempor\u00e2neo, via Sokurov ou Bartas). Embora a quest\u00e3o feminina insira um novo olhar ao curta, a encena\u00e7\u00e3o de suas premissas \u00e9 numa via bem mais tradicional. Exemplo disso \u00e9 que o grande momento do curta acontece em seu plano final, quando a paisagem assume for\u00e7a vital, integrando o espa\u00e7o \u00e0s op\u00e7\u00f5es de dramaturgia, uma nobre exce\u00e7\u00e3o dentro das op\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas do curta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por outro lado, havia um curta que, por tr\u00e1s de um aparente desenvolvimento narrativo mais tradicional, conseguiu extrapolar suas conven\u00e7\u00f5es narrativas para apresentar um trabalho de maiores ambi\u00e7\u00f5es: \u00e9 Na sua companhia, de Marcelo Caetano. O curta de Caetano apresenta dois homens que se encontram por acaso na noite e come\u00e7am a desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o afetiva. Delicado, quebra as representa\u00e7\u00f5es tradicionais tanto de g\u00eanero quanto da periferia. A representa\u00e7\u00e3o do universo dos homossexuais ou do espa\u00e7o da periferia n\u00e3o acontece pela \u201cvia negativa\u201d mas sim afirmativa: os personagens possuem vida porque n\u00e3o s\u00e3o essencialmente \u201crepresentantes de classe\u201d. Isso se d\u00e1 certamente pelas estrat\u00e9gias de encena\u00e7\u00e3o de Caetano, sua op\u00e7\u00e3o pelos espa\u00e7os, pelos tempos, pelos olhares e pelos toques dos protagonistas. Caetano busca criar um espa\u00e7o \u00edntimo em que esses personagens se conhecem e se aproximam, a partir das suas diferen\u00e7as e das suas semelhan\u00e7as. Cria esse espa\u00e7o tamb\u00e9m por uma estrat\u00e9gia: um personagem procura filmar o outro, e a c\u00e2mera digital, \u201camadora\u201d, busca recriar essa dist\u00e2ncia entre os corpos, \u201creencenando\u201d essa tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas acredito que o curta de Caetano seja bem-sucedido n\u00e3o tanto por essa \u201cestrat\u00e9gia\u201d mas simplesmente pela delicadeza do realizador em evitar as \u201cestrat\u00e9gias de choque\u201d. Exemplo t\u00edpico dessa beleza est\u00e1 na cena com o \u201ccover de Maria Beth\u00e2nia\u201d, que foge do \u201cmeramente ex\u00f3tico\u201d para optar por uma encena\u00e7\u00e3o frontal, humana. N\u00e3o h\u00e1 caricatura, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a \u201caproxima\u00e7\u00e3o engra\u00e7adinha, cult ou kitsch\u201d, que foi a norma dos filmes aqui apresentados que tocam a quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o do homossexualismo, em que nisso se inclui M\u00e1scara Negra, que, apesar de simp\u00e1tico, n\u00e3o conseguiu ir al\u00e9m da caricatura ou do pastiche (um travesti que joga futebol).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Mostra Foco possuiu um \u201ccurta-\u00f3vni\u201d. \u00c9 Encontro com S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, o \u00fanico t\u00edpico document\u00e1rio entre esse conjunto de filmes. O singelo curta de Daniel Ribeiro Duarte, deslocado a ponto de quase querer mostrar o esgotamento desse tipo de curta, apresenta a poesia de Maria Gabriela Llansol mas n\u00e3o atrav\u00e9s de dados biogr\u00e1ficos sobre a autora ou de depoimentos sobre a \u201cimport\u00e2ncia liter\u00e1ria\u201d de sua obra, mas simplesmente atrav\u00e9s de um mergulho em sua poesia. No entanto, o que traz interesse a esse curta \u00e9 como o diretor realiza sua proposta visando a materialidade do processo criativo, enfrentando o suporte f\u00edsico em que se deposita a obra. O curta pode ser visto dessa forma como um embate dial\u00e9tico entre carne e alma, entre o corpo e o esp\u00edrito, entre o papel e a ideia, entre a imagem e o sonho. Nos atuais tempos em que o suporte f\u00edsico perde import\u00e2ncia mediante os novos processos digitais de escrita, o curta assume uma conota\u00e7\u00e3o ainda mais interessante.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vemos a pr\u00f3pria letra de Llansol sobre o papel, rasurando, reescrevendo, burilando a escrita, como parte integrante do pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o. Exemplo m\u00e1ximo disso est\u00e1 o extraordin\u00e1rio plano em que \u201cdesfilam\u201d todos os livros da autora, expostos, um a um, em frente \u00e0 lente da c\u00e2mera, num plano-sequ\u00eancia. Simples, doce, delicado, \u00e9 um complemento adequado \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do curta: o livro aparece como suporte f\u00edsico, em sua materialidade. Parece um plano de Straub (Llansol como Bach): a literatura como trabalho extenuante, f\u00edsico mesmo, de escrita. Lembramos que a pr\u00f3pria Llansol diz que \u201cum livro n\u00e3o tem fim\u201d, pois no mesmo dia em que p\u00f5e o ponto final em um livro, ela come\u00e7a a primeira frase do seguinte.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Da mesma forma, no mesmo plano, seguem-se os livros que Llansol escreveu, um a um, num processo que n\u00e3o tem final (a dura\u00e7\u00e3o do plano como um princ\u00edpio \u00e9tico, ou ainda, como uma ontologia do autor). Bela declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios sobre a poesia, sobre o autor, sem a psicologia determin\u00edstica do desgastado desenvolvimento de personagens dos curtas anteriores. Aqui, sim, uma personagem \u00e9 vista sem psicologia mas atrav\u00e9s dos rastros f\u00edsicos de sua passagem: a escrita como corpo, o suporte f\u00edsico do livro ao inv\u00e9s da psicologia do autor. O que \u00e9 a escrita de Llansol? Um mist\u00e9rio!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 poss\u00edvel ver as mudan\u00e7as da Mostra Foco a partir de um pequeno gesto: enquanto no ano passado o curta premiado foi V\u00f3 Maria, um curta de um jovem realizador do Paran\u00e1 (Tom\u00e1s von der Osten), que articulava de forma inventiva um ensaio sobre a mem\u00f3ria atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es amb\u00edguas entre imagem (\u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d) e som (\u201cdepoimentos\u201d), neste ano, o vencedor foi Quando Morremos \u00e0 Noite, curta do tamb\u00e9m jovem Eduardo Morot\u00f3, contemplado na Mostra de S\u00e3o Paulo. Curta narrativo competente que se destaca pela espontaneidade dos atores, e que apresenta um olhar afetivo para personagens marginais mas que se afasta do discurso de sutileza do curta de Caetano. Olhando para um submundo, Morot\u00f3 optou por um \u201cBukowski clean\u201d. Tudo \u00e9 bem declamado, preciso, est\u00e1 no lugar certo, isto \u00e9, o oposto da poesia urgente e visceral que emana do universo do escritor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda que naturalmente irregulares, os curtas \u201cde fluxo\u201d (que eram a maioria em Tiradentes) propiciavam debates, suscitavam discuss\u00f5es, levantavam d\u00favidas, eram misteriosos. Cristalinos, bem realizados, os curtas desta Mostra Foco n\u00e3o davam espa\u00e7o para o debate. Talvez por isso os encontros com os realizadores tenham sido t\u00e3o pouco estimulantes. Num deles, um dos diretores passou boa parte do tempo explicando porque era importante retirar a equipe do set enquanto as atrizes filmavam as cenas mais \u00edntimas. Ou seja, passou a impress\u00e3o de que boa parte dos diretores n\u00e3o tinha muito o que dizer. Quando se tratam de curtas misteriosos, pol\u00eamicos, os encontros, no dia seguinte, tendem a ser naturalmente mais interessantes.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dizendo de outra forma, \u00e9 como se os curtas \u201cmorressem \u00e0 noite\u201d, logo ali depois do fim da proje\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Festival de Tiradentes em 2012 exibiu tamb\u00e9m dois filmes que permitem compara\u00e7\u00f5es diretas por suas semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as. Esses dois filmes me interessam na medida em que examinam um espa\u00e7o atrav\u00e9s de um determinado olhar.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 claro como a examina\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os \u00e9 recorrente no cinema contempor\u00e2neo, e como esse olhar para os espa\u00e7os se reflete num espa\u00e7o-tempo caracter\u00edstico. O espa\u00e7o como paisagem, que n\u00e3o se torna \u201cpano de fundo\u201d para encenar algo outro mas quase protagonista. \u00c9 curioso tamb\u00e9m como esses filmes formulam estrat\u00e9gias que reencenam possibilidades de habitar um espa\u00e7o, preenchendo esses espa\u00e7os com vazios e sil\u00eancios. Aus\u00eancias que falam a partir de estrat\u00e9gias distintas.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um passado n\u00e3o realizado, um projeto inconcluso, o tempo que continua. O fim est\u00e1 pr\u00f3ximo, o presente n\u00e3o confirmou as expectativas do passado, as coisas mudam, sempre para pior. Os rastros da mem\u00f3ria nesses espa\u00e7os, espa\u00e7os vistos como corpos dissecados por uma c\u00e2mera (um olhar). A c\u00e2mera habita esses espa\u00e7os como se fossem uma casa. Acredito que uma certa ideia de casa (\u201clar\u201d) liga os tr\u00eas filmes. Espa\u00e7o, paisagem, v\u00e3os, mem\u00f3ria, corpo, lar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O primeiro deles \u00e9 Balan\u00e7a mas n\u00e3o cai, longa de Leonardo Barcelos, da Teia, coletivo de Minas Gerais que vem realizando trabalhos significativos no cinema brasileiro contempor\u00e2neo, em geral relacionado com o document\u00e1rio. Leo Barcelos retoma uma tradi\u00e7\u00e3o primeira da Teia de fazer dialogar o document\u00e1rio com as artes visuais, ou ainda, com a videoarte. Fortemente baseado num dispositivo visual, Balan\u00e7a mas n\u00e3o cai se afasta de alguns filmes recentes da Teia que possuem uma arquitetura c\u00eanica minimalista, focados na experi\u00eancia do encontro do realizador com pessoas, em especial A falta que nos faz e O c\u00e9u sobre os ombros. A concis\u00e3o e a precis\u00e3o \u00edntima desses dois \u00faltimos filmes entram em contraste com o tom expansivo, quase neobarroco do filme de Barcelos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Seu ponto de partida \u00e9 um espa\u00e7o f\u00edsico bem definido: o edif\u00edcio Balan\u00e7a mas n\u00e3o cai, em Belo Horizonte. Para radiografar o pr\u00e9dio, o realizador utiliza um conjunto de estrat\u00e9gias: entrevistas com antigos moradores, adequadamente vestidos para a ocasi\u00e3o; imagens de arquivo abodando a import\u00e2ncia hist\u00f3rica do lugar; cenas de fic\u00e7\u00e3o em que atores incorporam uma certa aura m\u00edstica do lugar; planos formalistas do espa\u00e7o vazio; inser\u00e7\u00f5es videogr\u00e1ficas como grafismos, rabiscos, filtros e letras inseridos sobre a imagem, como rela\u00e7\u00f5es de texturas; planos em que os antigos moradores do local reencenam como habitavam esse lugar, mesclados com fus\u00f5es ou com imagens do pr\u00f3prio diretor ou equipe dirigindo a cena; planos de c\u00e2mera subjetiva em que o realizador, em tom confessional, analisa o impacto emocional da pesquisa sobre si mesmo.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse conjunto de estrat\u00e9gias de abordagem embaralha o filme, como se fosse um invent\u00e1rio de suas pr\u00f3prias possibilidades, como um caleidosc\u00f3pio de sensa\u00e7\u00f5es, f\u00edsicas, anal\u00edticas, motoras, sens\u00f3reas, emocionais. A s\u00edntese desse projeto est\u00e1 nos impressionantes planos de abertura do filme, em que uma esp\u00e9cie de grua circula o pr\u00e9dio, primeiro atrav\u00e9s de seu interior, e depois, por fora do pr\u00e9dio. Esse movimento vertiginoso que desorienta o espectador, que \u201cnunca p\u00e1ra quieto\u201d e que nunca consegue \u201cdar conta\u201d desse mesmo movimento talvez seja uma das imagens mais fieis ao esp\u00edrito do filme, que mostra tanto as suas ambi\u00e7\u00f5es quanto as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es desse projeto. Ao mesmo tempo em que as ru\u00ednas desse espa\u00e7o f\u00edsico interessam como grafismos de um espa\u00e7o (as paredes do pr\u00e9dio como um corpo atrav\u00e9s do qual a c\u00e2mera intervem atrav\u00e9s de texturas e formas, de incrusta\u00e7\u00f5es sobre sua superf\u00edcie), o diretor tamb\u00e9m se deixa fascinar pelos rastros de um passado, pelas mem\u00f3rias de seus antigos habitantes, e por uma certa aura de proibido, de libert\u00e1rio e de an\u00e1rquico que o pr\u00e9dio emana.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ou seja, para al\u00e9m desse espa\u00e7o f\u00edsico (o corpo como pele, ou as paredes como espa\u00e7o), interessa tamb\u00e9m a Barcelos identificar um certo modo de habitar o pr\u00e9dio, ou ainda, uma geografia \u00edntima, um comportamento \u201cesprevitado\u201d, um certo tom de rebeldia, um cheiro libidinoso, mas que agora reside apenas no passado ou em seus rastros. At\u00e9 que ponto esse esp\u00edrito libert\u00e1rio do passado pode ser sentido hoje atrav\u00e9s de uma radiografia desse espa\u00e7o f\u00edsico? \u2013 talvez essa seja a pergunta-chave que Balan\u00e7a mas n\u00e3o cai tenta se fazer. Longe de tentar responder, e em analogia com os \u201cplanos de vertigem\u201d que considero que s\u00e3o uma s\u00edntese visual do filme, \u00e9 como se o pr\u00f3prio filme, por meio de suas viragens e diversas estrat\u00e9gias de abordagem que necessariamente \u201cn\u00e3o se encaixam\u201d num todo org\u00e2nico, \u201cbalan\u00e7asse mas n\u00e3o ca\u00edsse\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 HU, de Pedro Urano e Joana Traub Cseko, \u00e9 \u201cbem mais s\u00f3lido\u201d que Balan\u00e7a mas n\u00e3o cai (fa\u00e7o uma ironia, j\u00e1 que o HU foi implodido, ao contr\u00e1rio do primeiro&#8230;). Vejo o filme como uma fus\u00e3o org\u00e2nica do trabalho de Pedro Urano como fot\u00f3grafo e cineasta e do rigor de Joana Cseko como pesquisadora e artista visual, pois h\u00e1 um rigor, na estrutura, nos planos e nos tempos que Estrada real da cacha\u00e7a, longa anterior de Urano, n\u00e3o tinha, em sua delirante estrutura de caleidosc\u00f3pio. Aqui, h\u00e1 uma fus\u00e3o entre cinema e arte visual, ou ainda, entre o instinto e a raz\u00e3o, mais equilibrados. Talvez o que possibilite essa \u201cfus\u00e3o org\u00e2nica\u201d entre os dois diretores seja o fato de que HU \u00e9 um filme de arquitetura.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Penso, dessa forma, o pr\u00f3prio t\u00edtulo do filme \u2013 HU \u2013 como uma rela\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica, entre as linhas retas e curvas das duas letras, pelos espa\u00e7os vazios que fazem ressoar sonoridades: HU tamb\u00e9m \u00e9 um filme sobre os espa\u00e7os vazios entre o \u201cH\u201d e o \u201cU\u201d (ou ainda, sobre a estrat\u00e9gia do filme em dividir a tela em dois quadrantes de igual propor\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o s\u00e3o exatamente sim\u00e9tricos). Me interesso por HU n\u00e3o meramente pela radiografia que faz de um grande projeto arquitet\u00f4nico abandonado, ou pelo tom de den\u00fancia ao descaso com a sa\u00fade p\u00fablica no pa\u00eds, mas essencialmente o que me interessa no filme \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a arquitetura, em como os diretores encontraram op\u00e7\u00f5es de encenar formas como um espa\u00e7o f\u00edsico pode ser habitado.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Colocando de outra forma, vejo o hospital universit\u00e1rio como uma casa, que precisa ser habitada. Mas diferentemente do filme de Leo Barcelos, que deixa um pouco o olhar da arquitetura para acompanhar antigos moradores desse pr\u00e9dio, como um rastro nost\u00e1lgico de um certo tipo de comportamento, em HU o que importa \u00e9 a arquitetura n\u00e3o somente como um espa\u00e7o f\u00edsico, mas como representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de uma forma arejada de habitar um espa\u00e7o.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ou seja, as quest\u00f5es da geografia humana de HU s\u00e3o tamb\u00e9m quest\u00f5es formais, ou ainda, quest\u00f5es cinematogr\u00e1ficas de como representar um espa\u00e7o que, para al\u00e9m da beleza e do rigor de sua constru\u00e7\u00e3o, deve ser vivido e n\u00e3o simplesmente admirado como projeto. N\u00e3o sei se me fa\u00e7o claro. A pr\u00f3pria arquitetura do HU \u00e9 impressionantemente ousada como projeto arquitet\u00f4nico, como projeto formal. De outro lado, esse belo espa\u00e7o formal n\u00e3o tem m\u00e9ritos meramente formais: \u00e9 um espa\u00e7o para ser habitado, para ser vivido, isto \u00e9, \u00e9 uma casa.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 um \u201cespa\u00e7o arejado\u201d, de entrada de vento e sol (de ar e luz). Esse projeto, que alia arrojo formal a um modo de habitar um espa\u00e7o, \u00e9 um projeto pol\u00edtico. Da mesma forma, o filme HU se intessa pelo rigor do olhar pl\u00e1stico do enquadramento dos espa\u00e7os, mas transcende seu olhar formalista buscando os modos de como habitar esse espa\u00e7o. \u00c9 isso que o faz um filme pol\u00edtico: n\u00e3o por \u201cdenunciar\u201d o descaso com a sa\u00fade p\u00fablica e o abandono do pr\u00e9dio, mas em ser essencialmente \u201cum filme de arquitetura\u201d, em pensar cinematograficamente como habitar um espa\u00e7o \u201cde forma arejada\u201d, em pensar como o projeto arquitet\u00f4nico \u00e9 tamb\u00e9m um projeto pol\u00edtico. Essas op\u00e7\u00f5es ficam claras ao final do filme, quando o abandono do pr\u00e9dio \u00e9 associado com um abandono de um projeto arquitet\u00f4nico ou ainda com o abandono de uma cidade.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Diferentemente do filme de Leo Barcelos, que mostra a \u201crenova\u00e7\u00e3o\u201d do Balan\u00e7a, agora como empreendimento imobili\u00e1rio de sucesso, ou seja, \u201ca transgress\u00e3o absorvida pelo mercado\u201d, a espetacular implos\u00e3o do HU mostra o fim de um projeto. Enquanto Barcelos se interessa pela \u201caura fantasm\u00e1tica\u201d dos \u201cescombros\u201d do aut\u00eantico Balan\u00e7a, Joana e Pedro se interessam mais pelo desfazimento do concreto, pela poeira que d\u00e1 lugar ao vento que circulava pelos amplos corredores do hospital. Nesse sentido, \u00e9 sintom\u00e1tico um corte do filme, em que se passa de uma microc\u00e2mera que entra pela boca e filma os \u00f3rg\u00e3os internos de um paciente para um plano que mostra as rachaduras da estrutura f\u00edsica do pr\u00e9dio, com suas tubula\u00e7\u00f5es e vigas deterioradas.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>HU n\u00e3o \u00e9 o cinema observacional de \u201cHospital\u201d em que Wiseman acompanha as rela\u00e7\u00f5es humanas entre funcion\u00e1rios e pacientes, como reflexo das contradi\u00e7\u00f5es da estrutura administrativa e pol\u00edtica de uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas sim analisa essas mesmas contradi\u00e7\u00f5es a partir de uma radiografia f\u00edsica, de um \u201craio-X\u201d das entranhas f\u00edsicas (fisiol\u00f3gicas) desse corpo. O hospital \u00e9 visto portanto menos em seu aspecto sociol\u00f3gico ou psicol\u00f3gico e mais como um corpo. O hospital como uma casa, a casa como arquitetura, e a arquitetura como um corpo.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um longo inverno, a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cr\u00edtico, professor de cinema e cineasta Marcelo Ikeda est\u00e1 de volta. 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