{"id":11120,"date":"2012-03-12T11:37:00","date_gmt":"2012-03-12T13:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/o-fim-da-mpb-e-a-descultura-de-massa\/"},"modified":"2012-03-12T11:37:00","modified_gmt":"2012-03-12T13:37:00","slug":"o-fim-da-mpb-e-a-descultura-de-massa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/o-fim-da-mpb-e-a-descultura-de-massa\/","title":{"rendered":"O Fim da MPB e a (des)cultura de massa"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-8PBM5eDiuek\/T1370mvMNmI\/AAAAAAAAEi0\/-KcNw-0p6cU\/s1600\/luan+santana.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"480\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/luan+santana.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>O panorama musical brasileiro vem se notabilizando nos \u00faltimos anos por uma caracter\u00edstica insofism\u00e1vel: a falta de renova\u00e7\u00e3o da MPB, a denominada &#8220;M\u00fasica Popular Brasileira&#8221; &#8211; que caminha \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os grande nomes s\u00e3o os mesmos das d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo passado, todos na casa dos 70 anos de idade: Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Francis Hime e mais alguns menos votados. Das grandes cantoras restaram apenas Maria Beth\u00e2nia e Gal Costa. Quando se olha os compositores e cantores de MPB mais novos percebe-se muito pouca coisa: com boa vontade Lenine, Ana Carolina e&#8230; s\u00f3. \u00c9 muito, muito pouco.<\/p>\n<p>A que se deve tal fen\u00f4meno? Acredito que haja v\u00e1rias causas, mas irei me concentrar naquela que para mim \u00e9 uma das principais: a mudan\u00e7a do perfil da chamada &#8220;cultura de massa&#8221; brasileira e em especial sua veicula\u00e7\u00e3o nos \u00f3rg\u00e3os de longo alcance &#8211; basicamente televis\u00e3o aberta e r\u00e1dios FMs.<\/p>\n<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 90, mais ou menos, coexistiam diversas formas de m\u00fasica na televis\u00e3o aberta e nas r\u00e1dios FMs &#8211; estas mais segmentadas. Desde a MPB t\u00edpica at\u00e9 m\u00fasicas internacionais, passando por um lado mais popularesco. At\u00e9 mesmo a m\u00fasica cl\u00e1ssica tinha seu espa\u00e7o, ainda que nas manh\u00e3s de domingo. Haviam festivais de m\u00fasica e posteriormente programas como o &#8220;Chico e Caetano&#8221;, na d\u00e9cada de 80 na Globo. Volta meia programas como o Chacrinha e mais recentemente o pr\u00f3prio Fausto Silva abriam espa\u00e7o para esta m\u00fasica.<\/p>\n<p>Entretanto, estamos assistindo a uma crescente homogeneiza\u00e7\u00e3o da chamada &#8220;cultura de massa'&#8221;, de grande veicula\u00e7\u00e3o, baseada em m\u00fasica popularesca, descart\u00e1vel e de consumo imediato. S\u00e3o os &#8220;Luans Santanas&#8221;, os &#8220;Tel\u00f3s&#8221;, os &#8220;Jorge e Mateus&#8221; e os &#8220;Alexandres Pires&#8221; da vida que martelam nossos ouvidos dia ap\u00f3s dia na televis\u00e3o e no r\u00e1dio. Outras manifesta\u00e7\u00f5es musicais tornaram-se guetos, na pr\u00e1tica &#8211; talvez com a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra do samba, mas sobre isto falarei depois.<\/p>\n<p>Historicamente a demanda por este tipo de produto sempre coexistiu com outras manifesta\u00e7\u00f5es, mas por que se tornaram dominantes?<\/p>\n<p>A meu ver esta demanda foi criada pelo interesse da ind\u00fastria cultural como um todo em estabelecer uma esp\u00e9cie de &#8220;liinha de produ\u00e7\u00e3o&#8221; musical: m\u00fasica descart\u00e1vel, de mais f\u00e1cil elabora\u00e7\u00e3o, mais r\u00e1pida produ\u00e7\u00e3o e calcada em elementos visuais e em marketing agressivo. Paralelamente, por fatores que n\u00e3o discorrerei aqui este tipo de m\u00fasica tornou-se monopolista nos ve\u00edculos de massa, especialmente na televis\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>O que temos? <\/p>\n<p>M\u00fasica descart\u00e1vel, muitas vezes dilui\u00e7\u00f5es de g\u00eaneros originais, com letras paup\u00e9rrimas e ritmo acelerado &#8211; para &#8220;contagiar&#8221; o p\u00fablico. Ent\u00e3o temos &#8220;g\u00eaneros&#8221; como o pseudo-sertanejo, o sertanejo e o forr\u00f3 universit\u00e1rio, o &#8220;pagode rom\u00e2ntico&#8221; (que de samba e pagode n\u00e3o tem absolutamente nada) e este pop indefin\u00edvel de Luans Santanas e Tel\u00f3s como monopolizadores dos grandes espa\u00e7os de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a ind\u00fastria \u00e9 algo confort\u00e1vel, porque \u00e9 uma m\u00fasica de elabora\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida e que tira do artista a &#8220;griffe&#8221; e o dom\u00ednio da arte. Hoje a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e a televis\u00e3o n\u00e3o precisam esperar a inspira\u00e7\u00e3o de um Chico Buaarque ou de um Paulinho da Viola, por exemplo: basta acelerar o ritmo, rimar &#8220;amor&#8221; com &#8220;dor&#8221;, dizer que &#8220;vamos pular no tcheretet\u00ea&#8221; e &#8220;que vai rolar a festa&#8221;, com um rostinho bonito &#8211; que muitas vezes sequer canta &#8211; e aguardar o tilintar das moedas na caixa registradora.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica \u00e9 uma &#8220;linha de montagem&#8221; sem perenidade: daqui a dez anos ningu\u00e9m vai se lembrar de Luan Santana, por exemplo &#8211; embora aos 20 anos ele j\u00e1 tenha um patrim\u00f4nio de 50 milh\u00f5es de reais, o que \u00e9 espantoso. Este tipo de m\u00fasica descart\u00e1vel sempre existiu, mas tendo o monop\u00f3lio atual da grande m\u00eddia est\u00e1 caminhando para em duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas ser o \u00fanico tipo de express\u00e3o musical brasileira. \u00c9 um modelo que interessa especialmente \u00e0 ind\u00fastria por tirar a propriedade intelectual do artista e transferi-la para ela mesma.<\/p>\n<p>E a demanda por este tipo de m\u00fasica acabou sendo criada atrav\u00e9s do monop\u00f3lio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O leitor pode pensar que a falta de cultura m\u00e9dia do brasileiro tamb\u00e9m contribui, mas lembro que a escolaridade aumentou nas \u00faltimas d\u00e9cadas, n\u00e3o diminuiu. Por outro lado, como se pode gostar de algo que n\u00e3o se conhece, ainda mais quando o acesso \u00e0 tv a cabo ainda n\u00e3o alcan\u00e7a sequer a metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira?<\/p>\n<p>E o p\u00fablico m\u00e9dio aprendeu a &#8220;gostar&#8221; deste tipo de m\u00fasica por n\u00e3o ter outra op\u00e7\u00e3o em grande escala, de modo que hoje j\u00e1 h\u00e1 uma &#8220;retroalimenta\u00e7\u00e3o&#8221;: o grande p\u00fablico pede e consome cada vez mais este tipo de produto. Outras manifesta\u00e7\u00f5es musicais, hoje, se restringem a guetos a termos nacionais, restritos \u00e0 televis\u00e3o a cabo e a r\u00e1dios bastante segmentadas. As vezes nem isso: fiquei muito surpreso em ouvir na MPB FM aqui do Rio, esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio bastante segmentada, ontem Alexandre Pires e Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3. Ou seja: at\u00e9 em espa\u00e7os que deveriam ter o seu p\u00fablico segmentado esta m\u00fasica descart\u00e1vel est\u00e1 penetrando.<\/p>\n<p>O caso do samba de raiz \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra: o g\u00eanero est\u00e1 se renovando e se reinventando a partir dos mais velhos, bebendo na fonte deles e gerando um produto que \u00e9 moderno justamente por ser tradicional. N\u00e3o alcan\u00e7a o grande p\u00fablico de massa a n\u00e3o ser marginalmente, mas encontrou seu p\u00fablico e, na medida do poss\u00edvel, vai bem, obrigado. Contudo precisou o g\u00eanero ser praticamente extinto na d\u00e9cada de 90 para que houvesse esta renova\u00e7\u00e3o baseada, ironicamente, nesta &#8220;volta \u00e0s origens&#8221;. De certa forma o samba de enredo &#8211; que passou por um processo de mediocriza\u00e7\u00e3o semelhante nos \u00faltimos 15 anos &#8211; come\u00e7a a trilhar timidamente o mesmo caminho: renovar-se bebendo em sua origem.<\/p>\n<p>A MPB, por\u00e9m, caminha para sua extin\u00e7\u00e3o ao menos da forma como a conhecemos. Como expliquei acima a m\u00fasica popularesca, mais que dominante, est\u00e1 se tornando monopolista.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria agradece. E nossos ouvidos sofrem.<\/p>\n<p>Voltarei ao tema.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O panorama musical brasileiro vem se notabilizando nos \u00faltimos anos por uma caracter\u00edstica insofism\u00e1vel: a falta de renova\u00e7\u00e3o da MPB, a denominada &#8220;M\u00fasica Popular Brasileira&#8221;Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[12,99,15,17],"class_list":["post-11120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-cultura","tag-mpb","tag-musica","tag-vida-empresarial"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}