{"id":11095,"date":"2012-04-06T07:01:00","date_gmt":"2012-04-06T09:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/04\/cinecasulofilia-l%c2%b4apollonide\/"},"modified":"2012-04-06T07:01:00","modified_gmt":"2012-04-06T09:01:00","slug":"cinecasulofilia-l%c2%b4apollonide","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/04\/cinecasulofilia-l%c2%b4apollonide\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;L\u00b4Apollonide&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-B2lL2kA1qpo\/T335t0-PYtI\/AAAAAAAAEmk\/KHq4a4h_5N8\/s1600\/apollonide+1.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"358\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/apollonide+1.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta Sexta Feira Santa, <b>a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cr\u00edtico, professor e cineasta Marcelo Ikeda<\/b>. Como sempre, coluna publicada em <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p><i><b>L\u00b4Apollonide<\/b><\/i><\/p>\n<p>Desde o primeiro plano j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver uma proposta em L\u00b4Apollonide. <\/p>\n<p>Um travelling rigoroso enquadra os corredores vazios do bordel. Dois ou tr\u00eas corpos entram em quadro atrav\u00e9s de portas; os corpos cruzam-se rapidamente, para em seguida tormar o seu rumo, entrar em outro quarto, e deixar novamente o corredor vazio. S\u00e3o duas mulheres seminuas que se encontram no meio do corredor, trocam meias palavras, e um homem as acompanha de uma porta a outra. Uma luz dourada, c\u00e1lida, banha os corredores, numa luz de penumbra que nos remete \u00e0 luz dos candelabros e de um fim de tarde. Uma esp\u00e9cie de poente que tarda a chegar.<\/p>\n<p>L\u00b4Apollonide \u00e9 um filme de interiores, quase todo passado dentro do bordel (com exce\u00e7\u00e3o de uma cena marcante de que falaremos adiante). \u00c9 um filme de interiores femininos, ou seja, sobre a liberdade. <\/p>\n<p>Mais ainda, \u00e9 um filme sobre a luz.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o plano sobre os corredores, uma das mulheres narra um sonho. Esse sonho tem lacunas que v\u00e3o ser completadas pela vida, mas de uma forma nada id\u00edlica ou rom\u00e2ntica. L\u00b4Apollonide \u00e9 exatamente sobre a possibilidade do sonho nos limites do confinamento, ou ainda, sobre a possibilidade de viver os sonhos, ou melhor ainda, sobre a possibilidade da vida ainda que ela nos revele a faceta mais direta (ou dolorosa) do \u201co que s\u00e3o feitos os sonhos\u201d.<\/p>\n<p>Mas como Bertrand Bonello faz isso? Depois dos \u201cesc\u00e2ndalos\u201d de O Porn\u00f3grafo e Tir\u00e9sias, Bonello continua direcionando sua aten\u00e7\u00e3o para o corpo e o sexo, mas aqui de uma forma bem diferente dos filmes anteriores. O que impressiona \u00e9 a delicadeza com que o diretor abra\u00e7a o universo do bordel, mas sem deixar de mergulhar em suas facetas obscuras. <\/p>\n<p>H\u00e1 um clima afetuoso, de despojamento. Apollonide \u00e9 um trabalho de atrizes que est\u00e3o juntas em quadro, dividindo espa\u00e7os. Mas ao mesmo tempo \u00e9 um filme de \u00e9poca. Existe um rigor na composi\u00e7\u00e3o, na luz e na dire\u00e7\u00e3o de arte que aponta para um car\u00e1ter de constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica. Nada parece fruto de improviso mas de um despojamento calculado mas ao mesmo vivido, intenso, delicado. \u00c9 nessa aposta de mise-en-scene que Bonello faz seu coment\u00e1rio sobre as \u201cregras do jogo\u201d daquele mundo: como \u201catrizes\u201d, as personagens do filme de Bonello representam seu pr\u00f3prio papel. Enquanto representam esse papel, vivem seus sonhos, exp\u00f5em suas fraquezas, enfim, sobrevivem.<\/p>\n<p>Ao mostrar o universo de um bordel, Bonello evita o sensacionalismo da fetichiza\u00e7\u00e3o do universo do sexo como sin\u00f4nimo de degrada\u00e7\u00e3o ou do mero proibido. Mostra o bordel como um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, entre corpos e sonhos. Um local de encontros. N\u00e3o julga os personagens, como \u201cdentro\u201d ou \u201cfora\u201d de um sistema. N\u00e3o faz o filme para supostamente problematizar uma moral social quanto ao sexo. Prefiro pensar que seu filme fala de mulheres que sonham. Um filme sobre as m\u00e1scaras. Um filme sobre a coxia das apresenta\u00e7\u00f5es teatrais\/circenses.<\/p>\n<p>Entre \u201co crep\u00fasculo do s\u00e9culo XIX\u201d e \u201ca aurora do s\u00e9culo XX\u201d, L\u00b4Apollonide \u00e9 tamb\u00e9m sobre o fim de um tempo, mais do que sobre o recome\u00e7o de outro. \u201c\u00c9 o dia da Bastilha, mas ningu\u00e9m est\u00e1 te decapitando\u201d. \u00c9 o fim da aristocriacia e a chegada da prostitui\u00e7\u00e3o de massa nas ruas. Ou ainda, o fim do cinema de mise-en-scene para o triunfo do cinema num\u00e9rico. Ou a pauperiza\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a. Ou da Europa. Mas o diretor n\u00e3o observa o fim desse mundo com uma profunda nostalgia. Se o bordel \u00e9 retratado n\u00e3o raras vezes com um clima claustrof\u00f3bico, ou similar a uma pris\u00e3o, o branco das ruas n\u00e3o oferece uma solu\u00e7\u00e3o ing\u00eanua para essas mulheres. Talvez L\u00b4Apollonide seja uma reflex\u00e3o do sentido dos termos \u201cliberdade, igualdade e fraternidade\u201d no mundo de hoje.<\/p>\n<p>L\u00b4Apollonide, pelo menos para mim, tem outro ponto de interesse complementar. \u00c9 um filme de homenagens. <\/p>\n<p>Come\u00e7ando pela op\u00e7\u00e3o afetuosa de colocar em papeis menores alguns amigos diretores de seu pr\u00f3prio tempo, como Jacques Nolot e Xavier Beauvois. Ou ainda, uma homenagem ao romance de Victor Hugo, ou ainda ao expressionismo alem\u00e3o (o belo filme esquecido de Paul Leni) com a personagem da \u201cmulher que ri\u201d. Ou ainda ao cinema e ao n\u00f4 japon\u00eas. Ou talvez uma pantera negra, como se num filme de Bu\u00f1uel sobre os m\u00f3rbidos prazeres da burguesia decadente. Mas para mim a homenagem mais bonita de Bonello foi a Jean Renoir. A cena em que as mulheres fazem um piquenique em seu dia de folga me parece claramente devota a Um dia no campo, de Renoir. \u00c9 curioso como Bonello combina essas refer\u00eancias entre o expressionismo alem\u00e3o e o impressionismo franc\u00eas, sem nunca fazer com que essas refer\u00eancias sejam pesantes ou que oprimam o filme.<\/p>\n<p>Apesar de mostrar aspectos sofridos do enclausuramento, Bonello n\u00e3o quer fazer drama social sobre a escravid\u00e3o das mulheres nem quer promover a amoralidade da liberdade da explora\u00e7\u00e3o do corpo feminino. \u00c9 curioso pensar como L\u00b4Apollonide est\u00e1 muito distante das ambi\u00e7\u00f5es do brasileiro &#8216;O Doce Veneno do Escorpi\u00e3o&#8217;, sobre a Bruna Surfistinha. Enquanto o filme brasileiro \u00e9 cinema de mercado pragm\u00e1tico, que fala de um caso concreto de uma mulher que viu o sexo \u201ccomo um neg\u00f3cio\u201d, como forma de \u201cse dar bem na vida\u201d, e quer seduzir o espectador com cenas calientes, mescladas com um certo dramalh\u00e3o de \u201crecupera\u00e7\u00e3o do anjo ca\u00eddo\u201d, L\u00b4Apollonide procura conviver com essas mulheres, construir um clima de cinema, fazer rela\u00e7\u00f5es que apontam para um al\u00e9m-concreto.<\/p>\n<p>Pequenos fios de hist\u00f3ria aparecem e desaparecem pelos corredores do L\u00b4Apollonide, assim como os corpos das mulheres que transitam pela penumbra das luzes de tom \u00e2mbar. Restam pequenos momentos, lembran\u00e7as, mem\u00f3rias, de dor, de prazeres fugazes, de abandonos. <\/p>\n<p>Ao final, o que resta? O futuro. Numa das sess\u00f5es, a mulher amarrada grita \u201cquero parar\u201d. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. Ali est\u00e3o as marcas da \u201cmulher que ri\u201d. Marcas que ser\u00e3o usadas para outros fetiches. <\/p>\n<p>\u201cO que voc\u00ea vai fazer agora?\u201d <br \/>\u201cN\u00e3o sei\u201d.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta Sexta Feira Santa, a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cr\u00edtico, professor e cineasta Marcelo Ikeda. 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