{"id":11040,"date":"2012-05-23T08:25:00","date_gmt":"2012-05-23T10:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/historia-outros-assuntos-historiadores-vs-jornalistas-o-combate-biografico\/"},"modified":"2012-05-23T08:25:00","modified_gmt":"2012-05-23T10:25:00","slug":"historia-outros-assuntos-historiadores-vs-jornalistas-o-combate-biografico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/historia-outros-assuntos-historiadores-vs-jornalistas-o-combate-biografico\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos &#8211; &quot;Historiadores vs Jornalistas: O Combate Biogr\u00e1fico&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-PtE6wfhEAgI\/T7uScDM-OLI\/AAAAAAAAEzY\/LzooBgnpQeU\/s1600\/comicio-joao-goulart-1964.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"502\" qba=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/comicio-joao-goulart-1964.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta quarta feira, a coluna <strong>\u201cHist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos\u201d, do Mestre <personname productid=\"em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes\" w:st=\"on\"><personname productid=\"em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio\" w:st=\"on\">em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio<\/personname> Gomes<\/personname><\/strong>, faz um pequeno hist\u00f3rico do g\u00eanero e aborda as diferen\u00e7as entre biografias escritas por historiadores e as elaboradas por jornalistas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em um momento onde h\u00e1 v\u00e1rios exemplares deste g\u00eanero nas prateleiras das livrarias, \u00e9 um bom \u201cguia de leitura\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Historiadores vs Jornalistas: O Combate Biogr\u00e1fico<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><u>O Retorno da Biografia e o Modus Faciendi da Hist\u00f3ria de Vida<\/u><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A historiografia francesa foi aquela que mais desprezou a biografia como pr\u00e1tica historiogr\u00e1fica, relegando esta a um plano secund\u00e1rio, em detrimento da valoriza\u00e7\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas e das mentalidades, desde os primeiros trabalhos da Escola dos Annales.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na primeira metade da d\u00e9cada de 1970, mesmo com as reflex\u00f5es que tinham como objetivo a renova\u00e7\u00e3o do campo das pesquisas em Hist\u00f3ria, a biografia ainda n\u00e3o era citada e mesmo <personname productid=\"em La Nouvelle Histoire\" w:st=\"on\">em <i>La Nouvelle Histoire<\/i><\/personname>, um dicion\u00e1rio organizado por Jacques Le Goff, Roger Chartier e Jacques Revel, publicado em 1978, n\u00e3o se lia nada a respeito do g\u00eanero biogr\u00e1fico. Somente em 1986, no Dictionnaire des Sciences Historiques h\u00e1 men\u00e7\u00e3o, em um verbete, \u00e0 \u201chist\u00f3ria biogr\u00e1fica\u201d, assinado por Guy Chaussinand-Nogaret. Foi a partir da d\u00e9cada de 1980, ent\u00e3o, que houve o retorno da biografia hist\u00f3rica, tendo dois \u00edcones justamente identificados com a historiografia francesa &#8211; George Duby, que escreveu \u201cGuilherme, Marechal\u201d, e Jacques Le Goff, autor de \u201cS\u00e3o Lu\u00eds\u201d \u2013 como representantes do <i>ressurgimento<\/i> da biografia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Este \u201cretorno\u201d, no entanto, n\u00e3o ocorreu apenas em escala europ\u00e9ia: no Brasil, observamos que muitos historiadores tamb\u00e9m come\u00e7aram a trabalhar com biografias: Luiz Mott, com \u201cRosa Egipciana: uma santa africana no Brasil\u201d, Ronaldo Vainfas, com \u201cTrai\u00e7\u00e3o: um jesu\u00edta a servi\u00e7o do Brasil holand\u00eas processado pela Inquisi\u00e7\u00e3o\u201d, Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, com \u201cDomingos Sodr\u00e9, um sacerdote africano: escravid\u00e3o, liberdade e candombl\u00e9 na Bahia do s\u00e9culo XIX\u201d, Vavy Pacheco Borges com \u201cEm busca de Gabrielle: s\u00e9culos XIX e XX\u201d, Laura de Mello e Souza, com \u201cCl\u00e1udio Manoel da Costa\u201d, e mais recentemente, Jorge Ferreira, com \u201cJo\u00e3o Goulart, uma biografia\u201d \u2013 s\u00f3 para citar algumas (foto de Jango acima). <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por outro lado, constitui equ\u00edvoco pensar que apenas historiadores com trajet\u00f3ria e carreira renomadas produziram biografias. Tamb\u00e9m na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o h\u00e1 biografias sendo produzidas por doutorandos \u2013 alguns escrevendo biografias de personagens importantes para regi\u00f5es espec\u00edficas, como \u201cVisconde de Guarapuava: personagem na hist\u00f3ria do Paran\u00e1 \u2013 Trajet\u00f3ria de um homem do s\u00e9culo XIX\u201d, sem resson\u00e2ncia hist\u00f3rica em n\u00edvel nacional, o que prova que o g\u00eanero biogr\u00e1fico vem recuperando o seu prest\u00edgio e a sua legitimidade como pr\u00e1tica historiogr\u00e1fica.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><span>\u201cO retorno da biografia \u00e9 um movimento internacional e percept\u00edvel em diversas correntes recentes, tais como a nova hist\u00f3ria francesa, o grupo contempor\u00e2neo de historiadores brit\u00e2nicos de inspira\u00e7\u00e3o marxista, a micro-hist\u00f3ria italiana, a psico-hist\u00f3ria, a nova hist\u00f3ria cultural norte-americana, a historiografia alem\u00e3 recente e tamb\u00e9m a historiografia brasileira atual. Apesar das diferen\u00e7as entre estas tradi\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas, \u00e9 marcante em todas elas o interesse pelo resgate de trajet\u00f3rias singulares.\u201d<\/span><\/i><span>\u00a0<span>(SCHMIDT, 1997:5)<\/span><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas como falar em \u201cretorno\u201d se, em geral, as biografias, mesmo negligenciadas por d\u00e9cadas, nunca deixaram de ser produzidas \u2013 por jornalistas e curiosos?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o seria, portanto, a express\u00e3o \u201cretorno\u201d, produzida em um contexto de influ\u00eancia francesa, j\u00e1 que a Escola dos Annales, na tentativa de se desvencilhar do ran\u00e7o positivista, que valorizava apenas os estudos institucionais e a abordagem de grandes estadistas e personagens grandiosos, abandonou a biografia e depois retornou a ela?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na verdade, foram os historiadores que se eximiram de produzir biografias \u2013 fugindo do paradigma da hist\u00f3ria tradicional \u2013 \u201ca hist\u00f3ria feita por grandes homens\u201d. Biografias produzidas com fins comerciais e mercadol\u00f3gicos, que s\u00f3 sabiam exaltar as qualidades dos indiv\u00edduos na tentativa de eternizar a personagem \u2013 aquilo que Pierre Bourdieu chamou de \u201ca ilus\u00e3o biogr\u00e1fica\u201d, que elimina qualquer negativismo do conte\u00fado narrativo, e de cunho sensacionalista, fizeram com que os historiadores olhassem o g\u00eanero com alto grau de desconfian\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><u><span><span><span>\u00a0<\/span><\/span><\/span>Historiadores vs Jornalistas<\/u><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os pr\u00f3prios jornalistas \u2013 e suas pr\u00e1ticas narrativas &#8211; constituem alvo de cr\u00edtica dos historiadores. H\u00e1 diferen\u00e7as no <i>modus faciendi<\/i> de contar a vida dos indiv\u00edduos e na abordagem hist\u00f3rica e jornal\u00edstica na constru\u00e7\u00e3o de biografias: o historiador, ao contr\u00e1rio do jornalista, precisa ter o respaldo das fontes. J\u00e1 o jornalista, por sua pr\u00e1tica profissional, pode se reservar ao direito de preserv\u00e1-las. A utiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica ficcional na narrativa, pelos jornalistas, \u00e9 tamb\u00e9m outra caracter\u00edstica vedada aos historiadores. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por outro lado o historiador carece ainda de certa \u201chumildade\u201d na forma de se dirigir ao p\u00fablico, n\u00e3o por vontade pr\u00f3pria, mas porque foi acostumado, na Academia, a escrever para um p\u00fablico restrito \u2013 uma minoria especializada \u2013 e por isso faz uso de alta dosagem de erudi\u00e7\u00e3o. Um graduado em hist\u00f3ria escreve, em sua monografia, para duas pessoas; um mestrando, para tr\u00eas pessoas que formam sua banca; e um doutorando, para cinco pessoas. Uma \u201cmultid\u00e3o\u201d de pessoas&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No trabalho biogr\u00e1fico, o historiador tem o controle das fontes e faz a cr\u00edtica delas, fazendo uso de determinadas metodologias. E \u00e9 poss\u00edvel ter objetividade. Constitui argumento falacioso dizer que, ao se ter empatia com o seu objeto, o historiador perde objetividade. O historiador \u2013 e qualquer pessoa oriunda das Ci\u00eancias Humanas \u2013 n\u00e3o \u00e9 neutro com seu objeto de estudo. Ao escolher um tema j\u00e1 fica claro e evidente que ele tem simpatia por aquele assunto. N\u00e3o gostar do tema \u00e9 que constitui problema.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma coisa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que o historiador n\u00e3o pode perder, que \u00e9 sua obriga\u00e7\u00e3o, ao fazer o distanciamento do tema, para ter a percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a ele. Como bem disse Marc Bloch, \u201co historiador n\u00e3o julga, o historiador compreende\u201d. O bi\u00f3grafo pode n\u00e3o esconder simpatia pelo biografado, desde que n\u00e3o esconda nada do leitor \u2013 os erros, os equ\u00edvocos, as hesita\u00e7\u00f5es \u2013 proporcionando a este raciocinar e fazer seu julgamento como bem lhe conv\u00e9m. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio perceber que cada \u00e9poca tem seu tempo e que o ser humano \u00e9 envolto em rela\u00e7\u00f5es sociais, estando mergulhado em biografias paralelas desde que nasce. N\u00e3o se entende Jo\u00e3o Goulart sem sua esposa Maria Thereza; N\u00e3o se entende Get\u00falio Vargas sem o PTB. Biografias s\u00e3o paralelas e se entrela\u00e7am. Constatam-se tamb\u00e9m as aproxima\u00e7\u00f5es que, atrav\u00e9s da biografia, a hist\u00f3ria faz com a antropologia, na qual o resgate das hist\u00f3rias de vida j\u00e1 \u00e9 comum, e com a literatura, que est\u00e1 preocupada com as t\u00e9cnicas narrativas de constru\u00e7\u00e3o das personagens.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entretanto \u00e9 necess\u00e1rio admitir que algumas armadilhas s\u00e3o apresentadas ao historiador ao longo da constru\u00e7\u00e3o de uma biografia hist\u00f3rica. Decerto que a mais perigosa de todas \u00e9 a quest\u00e3o do anacronismo. O historiador, ao saber do futuro das personagens que biografa, adquire poder. Quando Lu\u00eds Carlos Preses e Carlos Lacerda nascem, o historiador j\u00e1 sabe da trajet\u00f3ria de cada um e que sofreram reveses pol\u00edticos ap\u00f3s o golpe civil-militar de 1964. Fazer uso de uma hist\u00f3ria teleol\u00f3gica pode atrapalhar, pois o historiador pode acreditar na inevitabilidade dos acontecimentos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nada na hist\u00f3ria \u00e9 inevit\u00e1vel. Jacob Gorender tem uma frase exemplifica isso: \u201cAs pessoas dizem que o Golpe de 1964 era inevit\u00e1vel porque ele aconteceu\u201d. Ao construir uma biografia, o historiador deve abstrair que, embora saiba o que ir\u00e1 acontecer, seu objeto de estudo n\u00e3o sabia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><u>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/u><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>BLOCH, Marc. <b>A Apologia da Hist\u00f3ria Ou O Of\u00edcio do Historiador<\/b>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>BOURDIEU, Pierre. A Ilus\u00e3o Biog<i>r\u00e1fica.<\/i> Paris: 1986. In: AMADO, J; FERREIRA, M.M. <b>Usos e Abusos da Hist\u00f3ria Oral<\/b>. Rio de Janeiro: FGV, 1996.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>COSTA, Arrisete C.L. <b>Biografias Hist\u00f3ricas e Pr\u00e1xis Historiogr\u00e1fica<\/b>. Saeculum \u2013 Revista de Hist\u00f3ria n. 23. Jo\u00e3o Pessoa, julho\/dezembro 2010.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>SCHMITD, Benito. <b>Construindo biografias. Historiadores e jornalistas: aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos<\/b>. In: Estudos Hist\u00f3ricos, Rio de Janeiro, n. 19, 1997. p. 5<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira, a coluna \u201cHist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos\u201d, do Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes, faz um pequeno hist\u00f3rico do g\u00eanero e aborda as diferen\u00e7asTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[35,33],"class_list":["post-11040","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cacique-de-ramos","tag-historia","tag-jornalismo"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11040"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11040\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}