{"id":11033,"date":"2012-05-29T07:47:00","date_gmt":"2012-05-29T09:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/resenha-literaria-memorias-de-uma-guerra-suja\/"},"modified":"2012-05-29T07:47:00","modified_gmt":"2012-05-29T09:47:00","slug":"resenha-literaria-memorias-de-uma-guerra-suja","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/resenha-literaria-memorias-de-uma-guerra-suja\/","title":{"rendered":"Resenha Liter\u00e1ria &#8211; &quot;Mem\u00f3rias de Uma Guerra Suja&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-kuj6shKbU7Y\/T8GrxIjL5uI\/AAAAAAAAE4g\/kPsDsS0i7zU\/s1600\/get_img+(1).jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"422\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/get_img+1.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>O leitor do Ouro de Tolo ficou longo tempo sem as resenhas liter\u00e1rias, mas esta semana teremos duas. O alvo de hoje \u00e9 o impressionante &#8220;Mem\u00f3rias de Uma Guerra Suja&#8221;, com o depoimento do ex-delegado do DOPS (Departamento de ordem Pol\u00edtica e Social) Cl\u00e1udio Guerra a Rog\u00e9rio Medeiros e Marcelo Netto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sobre os jornalistas: Medeiros \u00e9 um dos autores do excelente &#8220;Onde na Corrup\u00e7\u00e3o veste Toga&#8221;, sobre a corrup\u00e7\u00e3o no Judici\u00e1rio do Esp\u00edrito Santo, <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com.br\/2010\/09\/resenha-literaria-onde-corrupcao-veste.html\" target=\"_blank\">j\u00e1 resenhado neste Ouro de Tolo<\/a>.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Marcelo Netto, ao que parece, \u00e9 uma esp\u00e9cie de militante de esquerda &#8220;arrependido&#8221;. Em sua introdu\u00e7\u00e3o ao livro escreve entre outras barbaridades que &#8220;foi bom o Ex\u00e9rcito ter ganho aquela guerra&#8221; e pede desculpas pelas den\u00fancias envolvendo a Folha de S\u00e3o Paulo e a Globo no livro. Sinceramente, dispens\u00e1vel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O livro em si \u00e9 o relato das mem\u00f3rias do delegado (na foto) aos jornalistas, contando sua atua\u00e7\u00e3o na elimina\u00e7\u00e3o de inimigos do Regime Militar. Ap\u00f3s se tornar pastor evang\u00e9lico ele resolveu contar suas mem\u00f3rias e tudo o que ha via feito.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Guerra atuou como matador do regime, eliminando e ocultando corpos de advers\u00e1rios da ditadura. Depois foi um dos envolvidos nos atentados tramados pela extrema direita a fim de jogar a culpa nos advers\u00e1rios da ditadura e retardar o processo de abertura pol\u00edtica &#8211; entre eles, o famoso caso do atentado mal sucedido no Riocentro, em 1981.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O delegado mostra com detalhes como alguns at\u00e9 hoje desaparecidos pol\u00edticos pereceram e tiveram seus corpos desovados. Segundo Guerra a usina de a\u00e7\u00facar Cambahyba, em Campos, teve seu forno utilizado para queimar pelo menos dez corpos de advers\u00e1rios do regime, cujos nomes s\u00e3o citados no livro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O delegado tamb\u00e9m revela que h\u00e1 um segundo cemit\u00e9rio clandestino em Petr\u00f3polis, perto de uma casa onde funcionou um centro de tortura. Ele esclarece as circunst\u00e2ncias da morte de diversos desaparecidos pol\u00edticos no exemplar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O leitor deve estar se perguntando como o nome do delegado jamais apareceu nas listas de torturadores da ditadura. Isto se explica por duas formas: primeiro pelo fato de sua fun\u00e7\u00e3o ser a de matar na engrenagem, e segundo por sua discri\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As revela\u00e7\u00f5es sobre o destino dos desaparecidos pol\u00edticos s\u00e3o extremamente importantes e ele a meu ver deveria ser um dos primeiros a depor na rec\u00e9m-institu\u00edda Comiss\u00e3o da Verdade, mas a meu ver muito mais importantes s\u00e3o as revela\u00e7\u00f5es sobre alguns epis\u00f3dios bastante nebulosos do per\u00edodo da redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o descritos com riqueza de detalhes epis\u00f3dios como o do Riocentro, com a prepara\u00e7\u00e3o do atentado, dos detalhes &#8211; inclusive que n\u00e3o haveria socorro \u00e0s v\u00edtimas &#8211; e at\u00e9 porque uma das bombas explodiu no colo do militar: o carro parou embaixo de um cabo de alta tens\u00e3o e acabou &#8220;fechando o circuito&#8221;. Seriam tr\u00eas bombas, com muitas v\u00edtimas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Guerra tamb\u00e9m esclarece a morte do delegado S\u00e9rgio Fleury, um dos maiores carniceiros da ditadura e que faleceu em 1979 em um acidente no mar bastante suspeito. Guerra conta que sua morte foi decidida em uma reuni\u00e3o realizada em restaurante paulista e que se deveu a ele estar querendo ganhar muito dinheiro sozinho, al\u00e9m de ser um &#8220;arquivo vivo&#8221; da ditadura. Ressalto que o atestado de \u00f3bito de Fleury foi assinado pelo m\u00e9dico de triste mem\u00f3ria Henry Shibata, useiro e vezeiro em laudos forjados de v\u00edtimas da ditadura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro ponto interessante do livro \u00e9 como v\u00e1rios integrantes da comunidade de informa\u00e7\u00f5es, not\u00f3rios torturadores, se envolveram com o jogo do bicho carioca. Os respons\u00e1veis pela repress\u00e3o, em especial do SNI, direcionaram integrantes da comunidade de informa\u00e7\u00f5es para o bicho como uma esp\u00e9cie de compensa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Castor de Andrade tinha uma carteira do Cenimar (Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Marinha) e al\u00e9m do Capit\u00e3o Guimar\u00e3es, pelo menos dois presidentes de escolas cariocas s\u00e3o egressos deste momento. Um deles, inclusive, usa como apelido o seu\u00a0codinome\u00a0de torturador.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m s\u00e3o revela\u00e7\u00f5es do livro atentados frustrados aos pol\u00edticos Leonel Brizola e Fernando Gabeira, algo sobre o qual n\u00e3o se sabia. E elucida-se o assassinato de Alexandre Von Baumgarten, caso de grande repercuss\u00e3o em 1982.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Guerra conta sobre reuni\u00f5es no restaurante &#8220;Angu do Gomes&#8221;, no Rio de Janeiro, onde se reuniam n\u00e3o somente torturadores e matadores como os membros da &#8220;Scuderie Le Cocq&#8221;, grupo de exterm\u00ednio formado por policiais e que existia em diversos estados. Destas reuni\u00f5es no restaurante, onde se planejavam a\u00e7\u00f5es, participavam atores como Jece Valad\u00e3o e figuras proeminentes como Jos\u00e9 Oliveira de Bonif\u00e1cio Sobrinho, o Boni.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Revela-se que o atentado a bomba na casa do dono da Globo Roberto Marinho, na verdade, foi forjado pelo pr\u00f3prio empres\u00e1rio a fim de diminuir a press\u00e3o sobre ele por parte de outros \u00f3rg\u00e3os &#8211; ele era visto como &#8220;pr\u00f3-ditadura&#8221;. O delegado d\u00e1 detalhes da a\u00e7\u00e3o e mostra que foi feito para n\u00e3o machucar ningu\u00e9m. E a Folha de S\u00e3o Paulo prestou apoio log\u00edstico \u00e0 tortura durante o Regime Militar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Confirma-se tamb\u00e9m que os panfletos do PT encontrados no cativeiro do empres\u00e1rio Ab\u00edlio Diniz foram plantados pelo\u00a0mesmo\u00a0pessoal, a fim de prejudicar a candidatura de Lula a Presidente em 1989 &#8211; o epis\u00f3dio foi \u00e0s v\u00e9speras do segundo turno.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o esgoto aqui as revela\u00e7\u00f5es do livro, mas sem d\u00favida alguma \u00e9 um grande avan\u00e7o na elucida\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios epis\u00f3dios nebulosos de nossa ditadura. Questionou-se a veracidade do depoimento, mas os dados s\u00e3o bastante consistentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.travessa.com.br\/MEMORIAS_DE_UMA_GUERRA_SUJA\/artigo\/5327283b-51fe-4235-979c-d82910251953\" target=\"_blank\">Na Livraria da Travessa, custa R$ 35<\/a>. Indispens\u00e1vel.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leitor do Ouro de Tolo ficou longo tempo sem as resenhas liter\u00e1rias, mas esta semana teremos duas. 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