{"id":11031,"date":"2012-05-31T08:46:00","date_gmt":"2012-05-31T10:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/cinecasulofilia-duas-vezes-pialat\/"},"modified":"2012-05-31T08:46:00","modified_gmt":"2012-05-31T10:46:00","slug":"cinecasulofilia-duas-vezes-pialat","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/05\/cinecasulofilia-duas-vezes-pialat\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Duas vezes Pialat&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-S_mWTJJwSJ0\/T7-3CptmUcI\/AAAAAAAAE20\/FsewJ-z62y0\/s1600\/Pialat-La-Gueule-Ouverte-2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"380\" qba=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Pialat-La-Gueule-Ouverte-2.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Excepcionalmente nesta quinta, ap\u00f3s recesso temos mais uma edi\u00e7\u00e3o <strong>da coluna \u201cCinecasulofilia\u201d, do professor de cinema, cr\u00edtico e cineasta \u201cMarcelo Ikeda<\/strong>. Como sempre, <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>Duas vezes Pialat<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dispon\u00edveis em conjunto no makingoff.org \u2013 o principal canal de exibi\u00e7\u00e3o de filmes no Brasil \u2013 esses dois filmes de Maurice Pialat, realizados no in\u00edcio dos anos setenta, permanecem extramamente contempor\u00e2neos, talvez at\u00e9 mais do que quando foram produzidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esses filmes nos ajudam a jogar luz para um certo cinema franc\u00eas dos anos setenta, que n\u00e3o se filiava diretamente \u00e0 nouvelle vague francesa, mas herda um certo di\u00e1logo pela busca de uma nova dramaturgia, menos esquem\u00e1tica que o grosso do cinema cl\u00e1ssico. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esses dois filmes de Pialat formam, portanto, uma \u201cgera\u00e7\u00e3o de entremeio\u201d, tamb\u00e9m composta por realizadores n\u00f4mades como Jean Eustache, Chantal Akerman, Philippe Garrel, e alguns outros. H\u00e1, no entanto, diferen\u00e7as claras entre os filmes desses realizadores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esses dois filmes do Pialat se afastam muito do cinema da Chantal da \u00e9poca, mais pr\u00f3xima \u00e0s influ\u00eancias do estruturalismo de sua estada nos Estados Unidos. O que me parece formid\u00e1vel nesses filmes do Pialat est\u00e1 em sua op\u00e7\u00e3o quase suicida, sem concess\u00f5es, a uma recusa do espet\u00e1culo, a uma recusa da beleza. Quando se filma a decad\u00eancia de um casal, ou a decad\u00eancia da vida, uma op\u00e7\u00e3o (oper\u00edstica) \u00e9 preencher esse ocaso com um revestimento belo. Ideias de sacrif\u00edcio, reden\u00e7\u00e3o e culpa se misturam nesse inv\u00f3lucro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse aspecto, h\u00e1 pouco a ser acrescentado \u00e0 cr\u00edtica que Guiguet escreveu sobre A boca aberta: a recusa de um \u201cestilo\u201d, ou ainda, a recusa \u201cda arte\u201d \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o \u00e9tica de Pialat para representar a vida de uma forma digna. Interessa a Pialat mais do que desenvolver os cacoetes de um certo cinema autoral \u2013 muito em voga na \u00e9poca (e at\u00e9 hoje!) \u2013 mergulhar no corpo de seus personagens, vislumbrar os sintomas desse mal estar na platitude, nos acontecimentos do dia-a-dia, sem metaf\u00edsica, sem culpa e sem expia\u00e7\u00e3o dos pecados da exist\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma narrativa fragmentada, com grandes elipses temporais, entrecortada por planos longos. Op\u00e7\u00f5es de composi\u00e7\u00e3o de quadro e de encena\u00e7\u00e3o em geral econ\u00f4micas, deixando espa\u00e7o para o gesto e para a express\u00e3o dos atores. Um olhar atento para os gestos e para o corpo, para o que n\u00e3o \u00e9 dito (h\u00e1 algo entre esses personagens que nunca \u00e9 dito, que permanece na penumbra, por mais verborr\u00e1gico que o filme seja). S\u00e3o nesses interst\u00edcios que esses dois filmes de Pialat se revelam contempor\u00e2neos. Falam de um mal estar (a fal\u00eancia dos anos sessenta?) que se entranha no cotidiano e no corpo das pessoas, sem psicologia, sem vitimiza\u00e7\u00e3o, sem culpa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Parece que \u2018N\u00f3s n\u00e3o envelheceremos juntos\u2019 fez um relativo sucesso comercial. Estranho. \u00c9 um filme sobre um casal que tenta ficar junto, eles se amam, eles n\u00e3o se amam, eles se odeiam, eles sobrevivem, eles precisam um do outro, eles n\u00e3o possuem nada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Est\u00e1 claro desde o t\u00edtulo que essa tentativa ser\u00e1 fracassada. Uma trag\u00e9dia parece se anunciar, mas nunca se consome. \u00c9 um filme violento. Pialat n\u00e3o quer fazer lirismo da \u201cvida como ela \u00e9\u201d. Os personagens n\u00e3o sabem o que querem. Tentam se agarrar um ao outro porque \u00e9 tudo o que t\u00eam, mas simplesmente n\u00e3o conseguem. T\u00eam raiva, amam, \u00e9 tudo misturado. N\u00e3o h\u00e1 progress\u00e3o dram\u00e1tica, desenvolvimento, constru\u00e7\u00e3o <personname productid=\"em crescendo. E\" w:st=\"on\">em crescendo. E<\/personname> o filme procura ficar junto \u00e0 pele deles mas permanece numa dist\u00e2ncia. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer quem s\u00e3o, o que desejam. Precisam ficar juntos, n\u00e3o podem ficar juntos. \u00c9 um filme que permanece conosco ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o. Sobre esses filmes, Pilat diz \u201ch\u00e1 momentos\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Realizado logo depois, \u2018A boca aberta\u2019 aprofunda e radicaliza o que j\u00e1 estava presente no filme anterior. \u00c9 de um desencanto e de um poder cr\u00edtico de observa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 me lembro nos filmes de Bresson.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 muito bonito ver o texto do Guiguet sobre esse filme do Pialat porque sua admira\u00e7\u00e3o verdadeira e profunda por esse filme nos faz lembrar de seus pr\u00f3prios filmes, que Guiguet veio a realizar anos depois. A boca aberta \u00e9 sobre uma fam\u00edlia <personname productid=\"em decomposi\u00e7\u00e3o. Quando\" w:st=\"on\">em decomposi\u00e7\u00e3o. Quando<\/personname> digo decomposi\u00e7\u00e3o, falo em decomposi\u00e7\u00e3o em seu aspecto f\u00edsico mesmo, como o t\u00edtulo aponta. Tudo est\u00e1 no corpo. A m\u00e3e morre numa cama, o pai \u00e9 um mulherengo, o filho parece trilhar o mesmo caminho do pai. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra gera\u00e7\u00e3o? Mudan\u00e7a de h\u00e1bitos do interior para a metr\u00f3pole? Pialat n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o otimista. A boca aberta \u00e9 sobre a morte. Mas n\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como bem diz Guiguet, n\u00e3o h\u00e1 beleza nessa morte, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 fei\u00fara, n\u00e3o h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria. Por isso \u00e9 desconcertante. Como hoje se fala tanto no \u201cp\u00fablico para um certo cinema brasileiro\u201d, fico pensando: quem hoje gostaria de pagar R$20 para ir a um multiplex para assistir a uma fam\u00edlia se decompondo? <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pialat fala disso, independentemente se as pessoas n\u00e3o est\u00e3o preparadas para ouvi-lo. As elipses se esgar\u00e7am; os planos se alongam; a verborragia se mistura ao sil\u00eancio; a t\u00edpica mise en sc\u00e8ne discreta de Pialat se confunde com um extremo rigor. Um rigor \u00e9tico. Algumas cenas realmente memor\u00e1veis. Um travelling para tr\u00e1s quando o filho deixa a cidade do pai (me lembra um pouco o fim do News from home, mas \u00e9 bastante diferente!). Uma m\u00fasica que o filho ouve com a m\u00e3e, antes da doen\u00e7a. O filho e o pai ao p\u00e9 do leito de morte (\u201cacabou-se!\u201d). <\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o h\u00e1 mais tempo de lamenta\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso sobreviver. Grande cinema. Esses pequenos filmes precisam ser redescobertos. J\u00e1 est\u00e3o sendo. Est\u00e3o vivos. Inesperadamente falam sobre o nosso mundo de hoje. <\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excepcionalmente nesta quinta, ap\u00f3s recesso temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna \u201cCinecasulofilia\u201d, do professor de cinema, cr\u00edtico e cineasta \u201cMarcelo Ikeda. 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