{"id":11019,"date":"2012-06-11T08:15:00","date_gmt":"2012-06-11T10:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/o-drama-da-celulose\/"},"modified":"2016-09-22T13:53:26","modified_gmt":"2016-09-22T16:53:26","slug":"o-drama-da-celulose","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/o-drama-da-celulose\/","title":{"rendered":"O drama da celulose"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/eucaliptos_Bahia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/eucaliptos_Bahia.jpg\" width=\"528\" height=\"372\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na minha recente viagem a Porto Alegre, uma das leituras que consegui empreender foi a de &#8220;Sanguessugas do Brasil&#8221;, do jornalista do &#8220;Correio Braziliense&#8221; Lucio Vaz. \u00c9 uma colet\u00e2nea de reportagens investigativas feitas pelo autor em suas andan\u00e7as pelo Brasil &#8211; e por Bras\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre mat\u00e9rias sobre esc\u00e2ndalos recentes como o dos sanguessugas ou o das ambul\u00e2ncias, bem como o do Mensal\u00e3o &#8211; este, ali\u00e1s, bastante superficial &#8211; h\u00e1 tr\u00eas cap\u00edtulos que mostram diferentes aspectos de uma quest\u00e3o que eu n\u00e3o conhecia e que a meu ver \u00e9 um problema ambiental, econ\u00f4mico e social claro: a ind\u00fastria de celulose e o espalhamento das planta\u00e7\u00f5es de eucalipto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basicamente, como funciona o fabrico de papel? Gigantes planta\u00e7\u00f5es de eucalipto fornecem a madeira que ser\u00e1 picada, cozida e transformada em \u00a0pasta de celulose. Esta \u00e9 exportada e no exterior h\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o final em papel tal como conhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos temos grandes empreendimentos em fase de instala\u00e7\u00e3o ou opera\u00e7\u00e3o aqui no Brasil: a Celulose Riograndense, no munic\u00edpio de Gua\u00edba (RS), j\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o e que pretende ampliar seu parque fabril at\u00e9 2014, pertencente ao grupo chileno CMPC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Esp\u00edrito Santo a antiga Aracruz Celulose, hoje controlada pelo Grupo F\u00edbria (cujos maiores acionistas s\u00e3o a Votorantim e o grupo BNDESPar), det\u00e9m extensas florestas de eucaliptos na regi\u00e3o do munic\u00edpio de Aracruz. O Grupo F\u00edbria tamb\u00e9m possui f\u00e1bricas e \u00e1reas cultivadas com eucaliptos nos estados de S\u00e3o Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em territ\u00f3rio baiano temos a Veracel, f\u00e1brica de propriedade de uma joint venture entre a j\u00e1 citada F\u00edbria e a sueco-finlandesa Stora Enso. Para abastecer a f\u00e1brica localizada entre os munic\u00edpios de Eun\u00e1polis e Belmonte a empresa possui extensas reservas de eucaliptos que abarcam todo o sul da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais novo empreendimento, em fase de obten\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as e previsto para 2018 \u00e9 a Braxcel Celulose, em Tocantins. Parceria entre um s\u00f3cio asi\u00e1tico e a brasileira GMR, pretende plantar 100 mil hectares de eucaliptos pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio de Peixe (TO).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente aqui n\u00e3o listei todos os investimentos existentes no Brasil, mas apenas os mais recentes ou que tenham sido alvo do livro. O leitor deve estar se perguntando qual o problema que h\u00e1 neste tipo de investimento, que gera empregos e divisas, certo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois h\u00e1 v\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro deles \u00e9 o dano ao ecossistema e consequentemente \u00e0s popula\u00e7\u00f5es do entorno. Tanto a cultura quanto as f\u00e1bricas possuem a caracter\u00edstica de serem intensivas em consumo de \u00e1gua, o que vem gerando s\u00e9rios problemas \u00e0s comunidades de entorno. O consumo de \u00e1gua, em especial pelas florestas de eucaliptos, \u00e9 maior que a capacidade de reposi\u00e7\u00e3o das nascentes e po\u00e7os, o que leva ao esgotamento destas fontes e \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o da economia e mesmo da vida cotidiana destas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fen\u00f4meno que se repete em todas as \u00e1reas de plantio: os eucaliptos acabam monopolizando a \u00e1gua dispon\u00edvel e as comunidades no entorno acabam tendo dificuldades para manter as suas culturas de subsist\u00eancia, o gado e em alguns casos at\u00e9 mesmo a \u00e1gua pot\u00e1vel para consumo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso h\u00e1 outros problemas ambientais: os animais nativos ficam sem seu habitat e as pr\u00f3prias f\u00e1bricas de pasta de celulose, al\u00e9m de gerarem mau cheiro, ainda n\u00e3o possuem o sistema de descarte de res\u00edduos totalmente adequado &#8211; na Bahia, particularmente, esta quest\u00e3o \u00e9 mais s\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pampa ga\u00facho, por exemplo, o cultivo indiscriminado de eucaliptos, ex\u00f3genos ao bioma local, est\u00e1 causando na regi\u00e3o de Alegrete a desertifica\u00e7\u00e3o das terras em volta, gerando um problema s\u00e9rio n\u00e3o somente ambiental como social. Esta \u00e9 uma consequ\u00eancia s\u00e9ria: o eucalipto torna a terra imprest\u00e1vel para outros cultivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o \u00e9 que a gera\u00e7\u00e3o de empregos est\u00e1 longe de ser a alardeada pelas empresas, e pior ainda: em casos como o da Veracel a maioria dos empregos foi preenchida por gente que veio de fora. Cidades como Porto Seguro tiveram suas periferias invadidas por desalojados das zonas rurais, cujas culturas de subsist\u00eancia perderam rentabilidade &#8211; ou se extinguiram, ou foram desalojados pelos eucaliptos &#8211; e n\u00e3o tiveram acesso aos empregos oferecidos pela ind\u00fastria, intensiva em capital e mecaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, h\u00e1 uma desarticula\u00e7\u00e3o e desagrega\u00e7\u00e3o das economias origin\u00e1rias locais, o que no balan\u00e7o acaba gerando desemprego e um custo social bastante elevado. Vale lembrar que o benef\u00edcio da arrecada\u00e7\u00e3o de impostos \u00e9 apenas da cidade sede das unidades fabris, ao passo que as \u00e1rvores se espalham por outras cidades &#8211; que acabam recebendo somente o \u00f4nus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quest\u00e3o s\u00e9ria, tamb\u00e9m, \u00e9 a disputa envolvendo posse de terras com \u00edndios no norte do Esp\u00edrito Santo. H\u00e1 acusa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias &#8211; e consistentes &#8211; de que a hoje F\u00edbria teria grilado terras onde \u00edndios moravam, gerando uma disputa judicial que se arrasta at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, este \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte: as artimanhas utilizadas pelas empresas para muitas vezes burlar a lei e poder adquirir grandes extens\u00f5es de terras. S\u00e3o usados expedientes como laranjas, grilagens ou\u00a0mesmo\u00a0poder de persuas\u00e3o sobre fazendeiros que tiveram seu modo de subsist\u00eancia desarticulado pela pr\u00f3pria din\u00e2mica produtiva da celulose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente a a\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos \u00e9 no sentido de enaltecer a presen\u00e7a destas ind\u00fastrias, advogando uma industrializa\u00e7\u00e3o a todo custo que nem sempre parece vi\u00e1vel, por desarticular a economia local. Vale lembrar tamb\u00e9m que as ind\u00fastrias de celulose aparecem entre as principais financiadoras de campanhas pol\u00edticas nestes estados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o esgoto o tema aqui, longe disso &#8211; at\u00e9 por n\u00e3o ser especialista &#8211; mas queria ressoar o apelo do livro e alertar para os preju\u00edzos ambientais, econ\u00f4micos e sociais advindos da cultura de eucaliptos e do processamento da pasta de celulose.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha recente viagem a Porto Alegre, uma das leituras que consegui empreender foi a de &#8220;Sanguessugas do Brasil&#8221;, do jornalista do &#8220;Correio Braziliense&#8221; LucioTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[58,114,17],"class_list":["post-11019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-economia","tag-meio-ambiente","tag-vida-empresarial"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11019\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}