{"id":11012,"date":"2012-06-16T10:34:00","date_gmt":"2012-06-16T12:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/buraco-da-fechadura-fabricando-carnaval\/"},"modified":"2012-06-16T10:34:00","modified_gmt":"2012-06-16T12:34:00","slug":"buraco-da-fechadura-fabricando-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/buraco-da-fechadura-fabricando-carnaval\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Fabricando Carnaval&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-p_sUaRjOSUs\/T8_QmEksNeI\/AAAAAAAAFAw\/scsEFTYQyUQ\/s1600\/Imagem+243.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" fba=\"true\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem+243.jpg\" width=\"300\"><\/a><\/div>\n<div>Neste s\u00e1bado, <strong>a coluna \u201cBuraco da Fechadura\u201d, do compositor Alo\u00edsio Villar<\/strong>, traz uma alegoria do que \u00e9 o carnaval dito \u201cmoderno\u201d pelos \u201cespecialistas\u201d.<\/p>\n<p>Em tempo: as express\u00f5es referentes aos homossexuais utilizadas no texto n\u00e3o representam nem o pensamento do autor nem deste editor. Entretanto, infelizmente \u00e9 o retrato do meio, em especial de seus mandat\u00e1rios. Fica o aviso.<\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o dada, divirta-se leitor. Ria para n\u00e3o chorar.<\/p>\n<p><strong><em>Fabricando Carnaval<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Acad\u00eamicos do Gato Molhado passava por aquilo que chamamos de \u2018crise\u2019. Outrora escola grande, com alguns t\u00edtulos no carnaval carioca, a agremia\u00e7\u00e3o gatomolhadense vinha h\u00e1 alguns anos \u2018na seca\u2019 e no \u00faltimo festejo de Momo quase caiu para o Grupo de Acesso.<\/p>\n<p>O presidente Nezinho convocou sua diretoria logo ap\u00f3s o desfile e cobrou o motivo da escola quase ter \u2018tomado na tarraqueta\u2019. O diretor de carnaval Chocolate disse que o enredo n\u00e3o rendera bem na avenida, os jurados n\u00e3o entenderam nada e o p\u00fablico ficou com cara de bunda.<\/p>\n<p>Nezinho, irritado, perguntou como podiam n\u00e3o entender um enredo t\u00e3o simples como a \u201cviagem de Maur\u00edcio de Nassau pelo Imp\u00e9rio Inca na p\u00f3s modernidade do terceiro mil\u00eanio sobre a era de Aquarius\u201d? Chocolate tentou desconversar e Nezinho mandou \u201cdemitam o Xibiu de Jesus!!\u201d.<\/p>\n<p>Chocolate lembrou que o carnavalesco n\u00e3o podia ser demitido, pois, al\u00e9m de n\u00e3o receber sal\u00e1rios h\u00e1 seis meses ainda arrumava investidores para a agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca. Resignado Nezinho sentou-se na cadeira presidencial e resmungou <em>\u201ctemos que aturar a bicha louca\u201d.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Xibiu entrou na sala e Nezinho logo levantou abrindo os bra\u00e7os e dizendo \u201cmeu carnavalesco!!\u201d. Xibiu mandou que o homem nem tocasse nele, pois, estava \u201cestressad\u00e9rrimo\u201d do \u00faltimo carnaval e pediria as contas da escola.<\/p>\n<p>Nezinho implorou para que o carnavalesco n\u00e3o fizesse isso, enquanto Xibiu contava que n\u00e3o ag\u00fcentava mais trabalhar com baixo or\u00e7amento e desperdi\u00e7ar seus enredos geniais. Chocolate respondeu que o \u00fanico jeito era buscar um enredo patrocinado. Nezinho esbravejou que era contra seus princ\u00edpios. <\/p>\n<p>O ano seguinte seria o do centen\u00e1rio de Tio Catatau, fundador e maior nome da hist\u00f3ria da agremia\u00e7\u00e3o. Chocolate respondeu que ele j\u00e1 tinha morrido, ent\u00e3o nem ligaria de n\u00e3o ser homenageado. Nezinho bateu o p\u00e9 dizendo n\u00e3o: tinha dado a palavra \u00e0 fam\u00edlia de Tio Catatau e n\u00e3o voltaria atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Xibiu comentou que em enredos patrocinados existia a possibilidade de desvio de verba e Nezinho perguntou como arrumariam um enredo assim. Chocolate respondeu que seu primo Nen\u00ea Bei\u00e7ola tinha conhecimento com empres\u00e1rios paulistanos e poderia ajudar.<\/p>\n<p>Conversaram com Nen\u00ea Bei\u00e7ola, <em>\u2018171 profissional e juramentado\u2019<\/em> e decidiram ir a S\u00e3o Paulo negociar. Xibiu tinha medo de avi\u00e3o, ent\u00e3o os quatro decidiram ir a terras paulistanas no Fusca velho de Chocolate. <\/p>\n<p>Partiram naquela geringon\u00e7a torcendo para que n\u00e3o quebrasse no meio do caminho. S\u00f3 que quebrou no meio do nada fazendo fronteira com o \u201ccoisa nenhuma\u201d.<\/p>\n<p>Desceram do Fusca e viram uma cidade quase fantasma, abandonada no meio da poeira com algumas casas, bichos andando na rua e um calor do diabo. <\/p>\n<p>Xibiu tirou o leque e come\u00e7ou a se abanar desesperadamente reclamando do calor. Nezinho percebeu um posto de gasolina pr\u00f3ximo e empurraram o carro at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Tinha apenas um homem sentado numa cadeira ao lado da bomba de gasolina, tirando uma pestana, quando Chocolate perguntou onde tinha uma oficina mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>O homem respondeu que tamb\u00e9m era dono da oficina, mas s\u00f3 trabalhava na mesma a noite porque era frentista de manh\u00e3 e prefeito da cidade de tarde. Nezinho tentava entender aquela situa\u00e7\u00e3o quando Chocolate chegou pr\u00f3ximo e perguntou \u201cvoc\u00ea \u00e9 o prefeito da cidade?\u201d.<\/p>\n<p>O homem se levantou e cumprimentou Chocolate dizendo \u201csim, Ribamar Macieira, seu criado\u201d. Nen\u00ea Bei\u00e7ola logo teve senso de oportunidade: perguntou o nome da cidade e quantos habitantes tinha. Ribamar respondeu que se chamava Bole-Bole e tinha dois mil habitantes. Nen\u00ea esfregou as m\u00e3os e disse \u201ctemos um enredo\u201d.<\/p>\n<p>Nen\u00ea abra\u00e7ou Ribamar e come\u00e7ou a andar com ele acompanhado de Nezinho e Chocolate que nada entendiam. Xibiu ficou no carro mexendo em seu ventiladorzinho port\u00e1til. Perguntou ao prefeito se ele nunca pensara em ver sua cidade retratada na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed. O homem respondeu que gostava de samba, mas ali tinha nada pra mostrar.<\/p>\n<p>Nen\u00ea mandou que ele se despreocupasse porque no carnaval atual ningu\u00e9m ligava pra essas coisas. Era s\u00f3 ter algum chamariz na cidade que eles desenvolviam toda a hist\u00f3ria. Ainda assim o prefeito respondeu que n\u00e3o se lembrava de nada.<\/p>\n<p>Nezinho naquele instante come\u00e7ou a reclamar. Nen\u00ea perguntou qual era o problema e o homem respondeu que pisara em bosta de vaca. Nen\u00ea gritou que era isso. Eureca!<\/p>\n<p>O homem virou pra o prefeito e disse que Bole-Bole era a capital mundial do esterco. Ribamar nada entendeu e Nen\u00ea explicou que venderiam a imagem da cidade como a capital mundial do esterco e sua import\u00e2ncia fabricando fertilizantes para a melhoria da pr\u00e1tica agr\u00edcola. Bole-Bole era o local dos melhores fertilizantes do planeta. <\/p>\n<p>Ribamar co\u00e7ou a cabe\u00e7a e perguntou se aquilo daria certo. Nen\u00ea devolveu perguntando se tinha alguma ind\u00fastria na cidade e o prefeito respondeu <em>\u201cmo\u00e7o, aqui s\u00f3 tem poeira\u201d.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Perguntou pelo cofre da prefeitura e ele respondeu que estava vazio. Nen\u00ea reclamou que assim complicava, mas o prefeito contou que tinha uns fazendeiros na regi\u00e3o. Os olhos de Bei\u00e7ola brilharam e ele pediu que o prefeito marcasse uma reuni\u00e3o com esses fazendeiros.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o Nen\u00ea Bei\u00e7ola contou todos os benef\u00edcios que a cidade poderia ter passando na Sapuca\u00ed ao vivo pela Globo para mais de cem pa\u00edses. A cidade ficaria mundialmente famosa, viraria ponto tur\u00edstico com o principal, renderia muito dinheiro.<\/p>\n<p>Dinheiro sempre \u00e9 a palavra m\u00e1gica, aquela que abre portas; e assim os olhos dos fazendeiros brilharam. Dois dias depois a prefeitura de Bole-Bole e a Acad\u00eamicos do Gato Molhado assinavam um contrato de cinco milh\u00f5es de reais que seriam destinados ao carnaval da agremia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imediatamente Nen\u00ea Bei\u00e7ola pegou quinhentos mil e se despediu dos dirigentes dizendo que tinha que arrumar enredos para mais tr\u00eas escolas. <\/p>\n<p>Ribamar que era humilde &#8211; mas n\u00e3o bobo &#8211; botou a m\u00e3o em trezentos mil e Nezinho e Chocolate mais seiscentos mil cada. Nezinho chegou em Xibiu e contou que ele tinha tr\u00eas milh\u00f5es para fazer um enredo sobre a capital mundial do esterco. <\/p>\n<p>Xibiu com os olhos arregalados perguntou se era s\u00e9rio: que queriam que ele fizesse um enredo sobre bosta. Chocolate respondeu que sim. O carnavalesco fez um esc\u00e2ndalo respondendo que era um artista e n\u00e3o faria enredo sobre coc\u00f4.<\/p>\n<p>Chocolate enfureceu-se e falou<em> \u201cOlha s\u00f3, sua bicha burra: sua chance de receber sal\u00e1rio \u00e9 essa, vai sim fazer a porcaria desse carnaval!!\u201d<\/em>. Xibiu ainda injuriado disse que coc\u00f4 sozinho n\u00e3o sustentaria um enredo e Chocolate respondeu que era esterco, n\u00e3o coc\u00f4.<\/p>\n<p>Nezinho emendou mandando que ele inventasse. Colocasse que veio do Oriente, passou pela Europa, fez parte das tradi\u00e7\u00f5es africanas, que inventasse qualquer coisa at\u00e9 que o esterco chegasse a Bole-Bole.<\/p>\n<p>Contrariado Xibiu fez a sinopse e ela foi entregue aos compositores. Eles leram numa reuni\u00e3o e o compositor mais antigo da casa perguntou se era aquilo mesmo, um enredo sobre coc\u00f4. Chocolate respondeu que n\u00e3o: era esterco.<\/p>\n<p>A disputa de samba se iniciou com toda aquela festa que os compositores fazem nas quadras nesse per\u00edodo. Tr\u00eas sambas foram classificados para a final e Nezinho, Chocolate e Xibiu se reuniram para decidir o vencedor.<\/p>\n<p>Xibiu defendeu um samba que era de um dos seus casinhos, Chocolate queria outro composto por seu sobrinho e Nezinho um terceiro do seu parceiro de p\u00f4quer. Uma grande confus\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia da final logo ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es Nezinho pegou o microfone pra anunciar o vencedor.<\/p>\n<p>Essas foram suas palavras, absolutamente emocionantes:<\/p>\n<p><em>&#8211; A gente tivemos grandes obras nesse concurso de samba-enredo, mas infelizmente muitos ficaram pelo caminho e infelizmente a gente n\u00e3o podemos agradar a todos j\u00e1 que nem Jesus Cristo agradou. Eu fiz a escolha sozinho e se n\u00e3o der certo podem vir me cobrar a mim mesmo. Como voc\u00eas sabem em samba-enredo s\u00f3 se ganha um, mas aqui ganharam os tr\u00eas, juntei a porra toda e o samba \u00e9 esse.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Passou o microfone para o interprete da escola, o famoso Desdentado do Gato Molhado, que cantou o hino da agremia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Acad\u00eamicos do Gato Molhado<\/strong><br \/><em>Enredo: A viagem encantada do esterco: de Bole-Bole para o mundo adubando a vida<br \/>Presidente: Nezinho<br \/>Diretor de carnaval: Chocolate<br \/>Carnavalesco: Xibiu de Jesus<\/p>\n<p>Compositores: Bolol\u00f4, Vandercreison do Gato, Ananiel, Bola 7, Marcaradinho Ga\u00facho, Roberval do Posto, Feliciano do GatoNet, Zezeca da Vila Mimosa, Maneta do Cavaco, Stevie Wonder do Acari, Bet\u00e3o da Mil\u00edcia, Buzunga da Crackol\u00e2ndia, Sardinha da Feira,\u00a0Renatinho da Laje, Bruno Revela\u00e7\u00e3o, Cadinho da Ilha e Pedro Mig\u00e3o<\/p>\n<p>Int\u00e9rprete: Desdentado do Gato Molhado<\/p>\n<p>&#8220;Desde os tempos mais antigos<\/em><\/div>\n<div><em>Antigos pra cacete<br \/>O esterco \u00e9 importante<br \/>Pra vida de toda a gente<\/em><\/div>\n<div><em>Come\u00e7ou no oriente<\/em><\/div>\n<div><em>Viajou pro ocidente<\/em><\/div>\n<div><em>Em Roma e no Egito imperou<\/em><\/div>\n<div><em>Os fen\u00edcios tinham adora\u00e7\u00e3o<\/em><\/div>\n<div><em>O adubo vem em forma de ora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Vai vaquinha vai<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Deixe o rastro que garante a produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Vai vaquinha vai<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Deixe a bosta pra del\u00edrio do pov\u00e3o<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Chegou ao nosso continente<\/em><\/div>\n<div><em>O Brasil foi pra frente<\/em><\/div>\n<div><em>Orgulhoso desse mau odor<\/em><\/div>\n<div><em>Numa cidade aben\u00e7oada<\/em><\/div>\n<div><em>O esterco fez morada<\/em><\/div>\n<div><em>E a exporta\u00e7\u00e3o come\u00e7ou<\/em><\/div>\n<div><em>Das m\u00e3os do trabalhador<\/em><\/div>\n<div><em>Do seu suor o mundo foi sorrir<\/em><\/div>\n<div><em>Fertilizando a vida<\/em><\/div>\n<div><em>Hoje \u00e9 tema na Sapuca\u00ed<\/p>\n<p><strong>Sou Gato Molhado<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Boto no peito as cores do meu pavilh\u00e3o<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Canto Bole-Bole<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>E dou sacode sonhando ser campe\u00e3o<\/strong>&#8220;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O samba do crioulo doido at\u00e9 que deu certo e fez sucesso no pr\u00e9 carnaval. Com a grana, Xibiu de Jesus conseguiu fazer boas alegorias e fantasias e a escola entrou como uma das favoritas na avenida.<\/p>\n<p>O samba n\u00e3o rendeu o que a escola esperava. O desfile foi burocr\u00e1tico, xoxo como de costume no carnaval atual. Os desfilantes em alas n\u00e3o conseguiam sambar, brincar, evoluir; sempre que tentavam um diretor de harmonia os empurrava mandando andar. N\u00e3o saiam de suas posi\u00e7\u00f5es na fileira e passaram pela Sapuca\u00ed como numa marcha militar.<\/p>\n<p>Quase metade da escola era de componentes com camisas com o rosto de Nezinho, que mais atrapalhavam a agremia\u00e7\u00e3o que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>Mas mesmo sendo um desfile quase sem samba, sem alegria, foi um desfile considerado perfeito para os padr\u00f5es atuais. Beleza no visual trazida por bonitos carros e fantasias e sem abrir espa\u00e7os entre as alas.<\/p>\n<p>E como atendeu todos os requisitos do carnaval atual ganhou com dez em tudo, depois de muito tempo tornando-se campe\u00e3 do carnaval. Uma grande festa foi feita entre os dirigentes, prefeito de Bole-Bole e os fazendeiros. Xibiu de Jesus retocava as alegorias para o desfile das campe\u00e3s e Nezinho planejava achar outra cidade pra patrocinar a luta pelo bicampeonato.<\/p>\n<p>No desfile das campe\u00e3s a escola se posicionou para entrar tomando vaia do p\u00fablico. Nezinho mandou que Desdentado n\u00e3o ligasse e desse logo o grito de guerra. O cantor pegou o microfone quando ouviu-se uma algazarra.<\/p>\n<p>Nezinho perguntou o que ocorria e de repente todos tomaram um grande susto. Uma multid\u00e3o invadia a pista da Sapuca\u00ed.<\/p>\n<p>Era o povo. A pol\u00edcia tentou impedir, mas n\u00e3o teve como segurar o povo. Eram aquelas pessoas barradas pelos desfiles da atualidade, que n\u00e3o tem dinheiro para comprar ingresso para ver nem desfilar. <\/p>\n<p>Os pobres, desdentados (sem ser o cantor), os favelados, os humildes, o povo. Sim, o povo tomava de volta a Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, tomava de volta o que \u00e9 seu.<\/p>\n<p>Nezinho, a Acad\u00eamicos do Gato Molhado e os dirigentes do carnaval carioca olhavam abismados aquela multid\u00e3o feliz cruzar a Sapuca\u00ed com surdos, tamborins, cu\u00edcas, chocalhos, caixas cantando sambas antigos, expressando a felicidade de quem ama o samba de verdade. <\/p>\n<p>Muitas juraram naquela noite inesquec\u00edvel terem visto desfilar com o povo Candeia, Paulo da Portela, Natal, Silas de Oliveira, Cartola, Ismael, Noel, Clara Nunes, dona Zica, dona Neuma, Aroldo Melodia, Jamel\u00e3o e tantos outros baluartes que fizeram a hist\u00f3ria de nosso carnaval.<\/p>\n<p>Todos unidos cantando<em> \u201cn\u00e3o deixe o samba morrer, n\u00e3o deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar\u201d.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nezinho abismado olhava e perguntava o que fazer. Xibiu rebolativo respondeu <em>\u201ceu vou sambar com o povo, voc\u00ea? Fica com essa bosta a\u00ed\u201d<\/em> &#8211; e foi embora.<\/p>\n<p>E naquela noite o carnaval carioca adubado renasceu.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, a coluna \u201cBuraco da Fechadura\u201d, do compositor Alo\u00edsio Villar, traz uma alegoria do que \u00e9 o carnaval dito \u201cmoderno\u201d pelos \u201cespecialistas\u201d. Em tempo:Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[18,29,19,91],"class_list":["post-11012","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-buraco-da-fechadura","tag-carnaval","tag-contos","tag-escolas-de-samba","tag-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11012\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}