{"id":10996,"date":"2012-06-30T10:34:00","date_gmt":"2012-06-30T12:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/buraco-da-fechadura-meu-guri\/"},"modified":"2012-06-30T10:34:00","modified_gmt":"2012-06-30T12:34:00","slug":"buraco-da-fechadura-meu-guri","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/06\/buraco-da-fechadura-meu-guri\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Meu Guri&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Neste s\u00e1bado, <strong>a coluna &#8220;Buraco da Fechadura\ufeff&#8221;, do compositor Aloisio Villar<\/strong>, traz mais um conto de sua lavra. O tema hoje \u00e9 semelhante ao da m\u00fasica &#8220;O Meu Guri&#8221;, de Chico Buarque (acima).<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong><em>Meu Guri<\/em><\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div>E l\u00e1 foi Fil\u00f3 descendo mais uma vez o morro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com dificuldade devido aos oito meses de gravidez recebeu um \u201cboa noite tia\u201d dos soldadinhos do tr\u00e1fico do morro e com medo e arfando respondeu. L\u00e1 foi Fil\u00f3 para mais uma noite de trabalho.<\/p>\n<p>L\u00e1 foi Fil\u00f3 para a Vila Mimosa, conhecido centro de prostitui\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro. Apesar de j\u00e1 ter passado dos quarenta anos e h\u00e1 algum tempo n\u00e3o ter a beleza da juventude essa era a forma de Fil\u00f3 sobreviver. Mulher sozinha e moradora de favela, esse foi o \u00fanico trabalho que a mulher conheceu desde quando ainda menina se oferecia a caminhoneiros na beira da estrada onde morava.<\/p>\n<p>Engravidou em um \u201cacidente de trabalho\u201d, n\u00e3o tendo a m\u00ednima id\u00e9ia de quem fosse o pai. Cogitou no in\u00edcio abortar e inclusive tomou rem\u00e9dios, mas o danado era forte e n\u00e3o teve rem\u00e9dio que conseguisse lhe matar. Sem recursos, sem cultura Fil\u00f3 foi levando a gravidez sem acompanhamento m\u00e9dico, sem pr\u00e9-natal e s\u00f3 sabia que o moleque estava vivo porque as vezes dava chutes em sua barriga. Fil\u00f3 ria e falava que seria jogador de futebol.<\/p>\n<p>Sim, menino. Fil\u00f3 tinha certeza que carregava um.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando era mocinha sonhava em ter filho homem, var\u00e3o, aquele que lhe protegeria no mundo &#8211;\u00a0algo que nunca ocorreu na vida. Ela que cuidava dos irm\u00e3os menores depois que a m\u00e3e faleceu, pelo menos foi assim at\u00e9 o pai lhe aplicar uma surra de bambu e expuls\u00e1-la de casa ao saber que se prostitu\u00eda.<\/p>\n<p>Caiu no mundo, caiu na vida e estava nessa situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 aquele instante tendo que trabalhar com oito meses prestes a parir.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o era f\u00e1cil a vida de Fil\u00f3 tendo que competir com meninas algumas vezes com dezesseis, dezessete anos. Era deixada de lado pelos homens e muitas vezes tinha que cobrar mais barato para que algum velho b\u00eabado lhe notasse e levasse para o quarto. Os homens embriagados, com bafo de cacha\u00e7a subindo em cima dela como animais no cio e Fil\u00f3 deitada na cama com a m\u00e3o na barriga tentando proteger o seu guri. <\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, n\u00e3o era dotada de muita beleza e pelas costas sofria ironias das outras prostitutas e de clientes por sua idade e ainda por cima estar gr\u00e1vida.\u00a0Contudo Fil\u00f3 tinha bom cora\u00e7\u00e3o e sempre que podia ajudava as meninas: dava conselhos e at\u00e9 em casa chegou a levar algumas para almo\u00e7ar quando estas n\u00e3o tinham o que comer e mesmo ela tendo pouco at\u00e9 para si.<\/p>\n<p>Na noite descrita no come\u00e7o Fil\u00f3 n\u00e3o foi muito feliz no trabalho. J\u00e1 come\u00e7ava a madrugada e o frio do inverno tomava conta da Mimosa. Vestida com poucos trajes que em vez de passar sensualidade apenas passava constrangimento Fil\u00f3 sentada em uma mesa do lado de fora do bar bebia um trago pra tentar se esquentar quando sentiu um l\u00edquido escorrer pelas pernas. <\/p>\n<p>Notou que sua bolsa estourara, sentiu fortes contra\u00e7\u00f5es e correu atr\u00e1s de um taxista amigo pedindo ajuda. O homem n\u00e3o pensou duas vezes e levou Fil\u00f3 ao hospital mais pr\u00f3ximo. Chegou ao local j\u00e1 em trabalho de parto.<\/p>\n<p>\u201cMas que moleque danado e apressado\u201d pensou Fil\u00f3, sim porque ela estava ainda de oito meses, mas o guri queria nascer logo. O parto foi complicado porque o menino estava atravessado, mas o fim foi feliz e ele nasceu.<\/p>\n<p>Nasceu sem chorar o que deu susto na equipe m\u00e9dica, mas com um tapinha deu tudo certo e ele abriu o berreiro. O m\u00e9dico cortou o cord\u00e3o, embrulhou o menino chor\u00e3o em uma manta e entregou nos bra\u00e7os de Fil\u00f3. O primeiro contato entre m\u00e3e e o filho: o come\u00e7o de uma hist\u00f3ria de amor. <\/p>\n<p>Fil\u00f3 olhou aquele menininho em seus bra\u00e7os e sentiu algo inexplic\u00e1vel, coisa que s\u00f3 uma m\u00e3e sente. N\u00e3o era o momento ainda dele nascer, ainda faltava um m\u00eas e Fil\u00f3 ainda tentava arrumar mais algum dinheiro e comprar coisas que o menino precisaria, mas quando Deus manda temos que acatar e assim Fil\u00f3 pensou.<\/p>\n<p>Olhava o garoto em seus bra\u00e7os e falou \u201ctadinho, j\u00e1 nasceu com cara de fome\u201d. N\u00e3o pensara em um nome, nada e perguntou ao medico qual era seu nome, ele respondeu Ricardo e Fil\u00f3 disse que seria esse.<\/p>\n<p>No fim da madrugada a chuva batia na janela e Fil\u00f3 dava seu peito ao filho como seu primeiro alimento e cantava baixinho pra lhe ninar.<\/p>\n<p>Foi levando a vida como podia, com a garra de uma m\u00e3e e assim aos trancos e barrancos conseguia criar Cadinho, apelido que o menino ganhou. Nem ela sabia explicar como conseguia, mas talvez no fundo soubesse sim. Era quando fazia o almo\u00e7o, gritava que estava na mesa e l\u00e1 vinha o moleque correndo arteiro com uma pipa na m\u00e3o dizendo que cortara as pipas dos outros moleques.<\/p>\n<p>Cadinho lavava as m\u00e3os e sentava-se a mesa com a m\u00e3e que puxava a ora\u00e7\u00e3o e agradecia ao Senhor por aquele alimento. Muitas vezes era uma sopa rala, mas era o que o dinheiro conseguia comprar e ela agradecia da mesma forma que se fosse uma comida farta.<\/p>\n<p>Cadinho, bom menino, nunca foi de dar trabalho para a m\u00e3e. Soltava pipa, jogava bola, rodava pe\u00e3o e estudava em um col\u00e9gio p\u00fablico perto de casa. Fil\u00f3 chegava de manh\u00e3 da Vila Mimosa e sem dormir preparava um caf\u00e9 preto com p\u00e3o dormido para o filho e lhe acordava para a escola. O menino j\u00e1 chegava \u00e0 mesa com o uniforme, banho tomado, penteado e tomava seu caf\u00e9.<\/p>\n<p>No fim Fil\u00f3 olhava seus cabelos para ver se tinha piolhos, suas unhas para ver se n\u00e3o estavam grandes e sujas e dava um beijo em sua testa dizendo \u201cboa aula meu filho, Deus lhe aben\u00e7oe\u201d. O menino ia para a aula, mas ela n\u00e3o conseguia descansar com medo da viol\u00eancia que assolava a cidade, s\u00f3 respirava aliviada quando ouvia a porta abrir e o \u201cm\u00e3e cheguei\u201d.<\/p>\n<p>O menino foi crescendo e come\u00e7ando a entender as coisas e no que a m\u00e3e trabalhava. Uma noite Fil\u00f3 se despediu de Cadinho e ele pediu \u201cm\u00e3e, vai n\u00e3o\u201d. Fil\u00f3 cheia de ternura e pena chegou pr\u00f3xima ao filho e disse que tinha que ir sen\u00e3o n\u00e3o teriam o que comer no dia seguinte. Deu um beijo em sua testa e pediu que n\u00e3o fosse dormir tarde saindo de casa.<\/p>\n<p>Cadinho com l\u00e1grimas nos olhos viu a m\u00e3e descendo o morro para se prostituir e decidiu que aquilo n\u00e3o poderia ficar assim: teria que ajudar.<\/p>\n<p>Desceu o morro no dia seguinte depois da aula e foi para o sinal de tr\u00e2nsito lavar carros quando o sinal estava vermelho. N\u00e3o dava muito dinheiro, mas o guri era valente e ficava l\u00e1 at\u00e9\u00a0\u00e0 noite para levar uns trocados pra casa. Uma noite um amigo do morro viu Cadinho trabalhando e disse ao menino que aquilo n\u00e3o dava dinheiro e lhe colocaria em algo que daria. <\/p>\n<p>E o menino alguns dias depois chegou em casa cheio de sacolas. Fil\u00f3 nada entendeu e quando viu eram muitas sacolas com comida. Cadinho feliz dizia que era comida para o m\u00eas inteiro e pediu\u00a0\u00e0 m\u00e3e que lhe ajudasse a guardar as compras. Fil\u00f3 espantada perguntou aonde o guri tinha arrumado dinheiro para aquilo tudo e Cadinho respondeu que estava trabalhando e nunca mais faltaria nada em casa. <\/p>\n<p>Pediu que a m\u00e3e sentasse e quando Fil\u00f3 sentou no sof\u00e1 chegou com uma caixa. Ajoelhou em frente a m\u00e3e, tirou seu chinelo e abriu a caixa colocando um sapato novo naquele p\u00e9 cansado. Fil\u00f3 perguntou o que significava aquilo e Cadinho respondeu que n\u00e3o queria mais a m\u00e3e usando sapato velho e furado, ela merecia tudo do bom e do melhor.<\/p>\n<p>O moleque comprou t\u00eanis novo para ele, v\u00eddeo game, tv de lcd e a m\u00e3e olhava e se perguntava que emprego era aquele que ele arrumara. Cadinho abra\u00e7ava a m\u00e3e e dizia que em breve ela poderia parar de trabalhar e descansar que ele que tomaria conta dela.<\/p>\n<p>Uma noite Fil\u00f3 passou mal na Mimosa e decidiu voltar pra casa mais cedo. Subia o morro devagar para economizar ar quando viu a cena que mudaria sua vida.<\/p>\n<p>Viu um grupo de garotos com fuzis na m\u00e3o tomando conta da favela para que nenhuma fac\u00e7\u00e3o inimiga invadisse e nesse grupo estava Cadinho. Menino magrinho, fr\u00e1gil na apar\u00eancia carregava um fuzil maior que ele e quando viu a m\u00e3e ficou branco.<\/p>\n<p>A m\u00e3e olhava o filho e n\u00e3o conseguia falar nada, nem Cadinho. De repente ela teve uma crise de choro e subiu o morro correndo. Cadinho desesperado correu atr\u00e1s gritando pela m\u00e3e. <\/p>\n<p>Fil\u00f3 entrou em casa chorando e Cadinho entrou logo atr\u00e1s abra\u00e7ando a m\u00e3e e dizendo que lhe amava. Fil\u00f3 aceitou o abra\u00e7o e chorava desesperadamente no ombro do filho dizendo que n\u00e3o queria que ele morresse. Cadinho chorando tamb\u00e9m prometeu que nunca morreria e pediu que a m\u00e3e parasse de trabalhar. Fil\u00f3 deixando as l\u00e1grimas correrem pela sua face olhou o filho e respondeu que n\u00e3o podia. Cadinho enxugou as l\u00e1grimas da m\u00e3e e pediu mais uma vez que ela parasse e deixasse que ele tomasse conta dela. <\/p>\n<p>Fil\u00f3 abaixou os olhos e concordou em parar com Cadinho lhe abra\u00e7ando forte agradecendo e dizendo que lhe amava.<\/p>\n<p>Naquela noite acabou a paz de Fil\u00f3. Qualquer estampido que ouvisse ou atraso na volta para casa de Cadinho ela j\u00e1 achava que era alguma coisa. O cora\u00e7\u00e3o da mulher parava por alguns instantes e s\u00f3 voltava a bater quando ele mexia na porta e dizia \u201cm\u00e3e, cheguei\u201d.<\/p>\n<p>Algumas vezes o menino ficava em casa e eles juntos no sof\u00e1 assistiam a filme na TV nova. Cadinho com o tempo deitava no colo da m\u00e3e e ela lhe fazia carinho. Nenhum dos dois falava nada e nem precisava. <\/p>\n<p>O amor que nutriam um pelo outro era maior que qualquer palavra que pudesse ser dita. Um s\u00f3 tinha ao outro no mundo e era a raz\u00e3o de viver m\u00fatua. De repente Fil\u00f3 rompia o sil\u00eancio e cantava a mesma m\u00fasica que cantou no dia que ele nasceu para novamente lhe ninar e o menino ca\u00eda no sono.<\/p>\n<p>Um dia Fil\u00f3 fazia o almo\u00e7o quando sentiu um mal estar e deixou a panela de macarr\u00e3o cair no ch\u00e3o espalhando toda a comida. Seu cora\u00e7\u00e3o gelou, algo tinha acontecido. Segundos depois ouviu gritos desesperados de \u201cTia!! Tia!!\u201d.<\/p>\n<p>Fil\u00f3 correu para a porta e encontrou um amigo de Cadinho, ele n\u00e3o conseguia falar nada, s\u00f3 balbuciava \u201co Cadinho tia..\u201d.<\/p>\n<p>A mulher deu um grito de pavor e saiu correndo da favela.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desceu o morro numa velocidade que nunca descera na vida e na frente da favela encontrou um tumulto. Muitos populares, carro da pol\u00edcia e ela com uma for\u00e7a encontrada n\u00e3o se sabe aonde saiu empurrando e passando pelas pessoas que diziam \u201cera bandido mesmo\u201d, \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.<\/p>\n<p>Furou o cerco da pol\u00edcia e encontrou um corpo estendido na cal\u00e7ada com um pl\u00e1stico preto em cima.<\/p>\n<p>Um policial tentou segur\u00e1-la e Fil\u00f3 deu um grito como se ele sa\u00edsse da alma \u201cmeu filho!!\u201d. Ela debru\u00e7ou-se sobre o corpo e tirou o pl\u00e1stico preto encontrando o menino, o seu Cadinho com os olhos fechados parecendo um anjo e com mais de vinte marcas de bala.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra descrever bem o que ocorreu depois, acho que s\u00f3 uma m\u00e3e conseguiria descrever direito. Fil\u00f3 chorando pegou o corpo do filho nos bra\u00e7os e deu um grito de dor, uma dor forte, dilacerante que parecia sair de suas entranhas. <\/p>\n<p>Olhou para o c\u00e9u gritando \u201cn\u00e3o!!!\u201d e em um choro corrosivo como \u00e1cido apertou forte Cadinho contra seu peito, seu ventre como se quisesse que ele voltasse para sua barriga e assim lhe protegeria de todas as dores e males do mundo.<\/p>\n<p>Cadinho estava morto, Fil\u00f3 tamb\u00e9m, mas o amor de uma m\u00e3e por seu filho nem a morte \u00e9 capaz de dar fim.<\/p>\n<p>Olha a\u00ed, ai o meu guri, olha a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;olha a\u00ed, \u00e9 o meu guri.<\/p>\n<p><em>*Esse conto \u00e9 dedicado ao meu amigo Cadinho que perdeu o seu guri em novembro de 2010.<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, a coluna &#8220;Buraco da Fechadura\ufeff&#8221;, do compositor Aloisio Villar, traz mais um conto de sua lavra. 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