{"id":10919,"date":"2012-09-08T10:36:00","date_gmt":"2012-09-08T12:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/09\/buraco-da-fechadura-trocando-em-miudos\/"},"modified":"2012-09-08T10:36:00","modified_gmt":"2012-09-08T12:36:00","slug":"buraco-da-fechadura-trocando-em-miudos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/09\/buraco-da-fechadura-trocando-em-miudos\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Trocando em Mi\u00fados&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Neste s\u00e1bado, <strong>a coluna de contos &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;, do compositor Aloisio Villar<\/strong>, retorna com mais uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>Trocando em Mi\u00fados<\/p>\n<p><\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201c<em>Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>N\u00e3o me valeu<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>O resto \u00e9 seu\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O amor&#8230; Aquilo que procuramos durante toda nossa vida. Desde pequenos nos contam que ningu\u00e9m \u00e9 feliz sozinho e logo crian\u00e7as temos aquele carinho especial por coleguinha da sala de aula, professora ou artista da televis\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Crescemos e continuamos procurando nossa alma g\u00eamea. Encontramos o primeiro amor e achamos que ele \u00e9 para sempre. Teve um tempo at\u00e9 que era mais f\u00e1cil que isso ocorresse, mas nos tempos modernos o primeiro amor invariavelmente acaba sendo o primeiro apenas. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aquele que vira com o tempo uma doce recorda\u00e7\u00e3o.<span>\u00a0 <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em um momento aquela pessoa especial acaba pintando. Aquela que achamos que \u00e9 para a vida inteira. Conhecemos melhor, vem o namoro, \u00e0s vezes rola noivado e o casamento que esperamos ser para a vida inteira. Ter filhos, netos e um dia, bem velhinhos, morrer um nos bra\u00e7os do outro.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas nem sempre \u00e9 assim e Andr\u00e9 e Juliana come\u00e7am a conhecer o lado amargo com gosto de fel.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os dois est\u00e3o sentados no sof\u00e1 da sala. Um dos primeiros artigos do lar comprados pelo casal logo ap\u00f3s terem marcado o casamento. Um est\u00e1 ao lado do outro sem dizer uma palavra, o sil\u00eancio corta como motosserra o clima pesado.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cTrocando em mi\u00fados, pode guardar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>As sobras de tudo que chamam lar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>As sombras de tudo que fomos n\u00f3s<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>As marcas de amor nos nossos len\u00e7\u00f3is<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>As nossas melhores lembran\u00e7as\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana quebra o clima pesado da sala e pergunta se est\u00e1 tudo resolvido da parte de Andr\u00e9. O rapaz responde que sim, dividir\u00e1 apartamento com o irm\u00e3o at\u00e9 encontrar um para ele. Andr\u00e9 devolve a pergunta e Juliana responde que ficar\u00e1 com a m\u00e3e.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um pouco mais do sil\u00eancio que corta a alma \u00e9 \u201couvido\u201d na sala. Como pode? Dois seres humanos que dividiram sonhos, intimidades, que ficavam nus na frente um do outro se expondo de todas as formas poss\u00edveis n\u00e3o tinham assunto.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana mais uma vez quebra o sil\u00eancio e fala que o irm\u00e3o de Andr\u00e9 era gente boa e seria bom para ele esse recome\u00e7o a seu lado. Andr\u00e9 d\u00e1 o primeiro sorriso daquele dia terr\u00edvel e lembra da despedida de solteiro e do que ele e o irm\u00e3o aprontaram.<span>\u00a0 <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9, o irm\u00e3o e amigos bebiam em um inferninho da Lapa quando atrav\u00e9s de um amigo o irm\u00e3o de Andr\u00e9 soube que Juliana e amigas estavam em um clube de mulheres. Andr\u00e9 e os amigos correram pra l\u00e1, deram um papo no dono do estabelecimento e surpreenderam as meninas subindo no palco apenas de sunga e dan\u00e7ando.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 e Juliana d\u00e3o gargalhada lembrando da cena e depois caem na realidade. Andr\u00e9 suspira e levanta para arrumar o resto das coisas. Juliana pergunta se Andr\u00e9 precisa de ajuda e ele responde que n\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cAquela esperan\u00e7a de tudo se ajeitar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Pode esquecer<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Aquela alian\u00e7a, voc\u00ea pode empenhar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Ou derreter\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana para n\u00e3o enlouquecer naquele sof\u00e1 levanta e come\u00e7a a encaixotar algumas coisas da sala. Acaba encontrando em uma gaveta o \u00e1lbum de casamento. Olha as fotos dos dois felizes e uma l\u00e1grima cai de seu olho direito. Andr\u00e9 aparece na sala e pergunta o que ela olha, Juliana responde que \u00e9 o \u00e1lbum de casamento e ele se junta a mulher para olhar.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E os dois olhando o \u00e1lbum viajam ao passado e lembram aqueles momentos. Andr\u00e9 com gravata cortada fazendo careta, Juliana jogando o buqu\u00ea, a fam\u00edlia toda reunida e no olhar do casal a sensa\u00e7\u00e3o que aquele momento existiria para sempre.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o aconteceu&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana pergunta se Andr\u00e9 queria ficar com o \u00e1lbum e o rapaz responde que pode ficar com ela, voltando ao quarto. Juliana guarda o \u00e1lbum na caixa junto com seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 volta do quarto com um chap\u00e9u verde e amarelo rid\u00edculo e rindo pergunta se Juliana lembra. A mo\u00e7a ri e responde que sim, era da lua de mel <personname productid=\"em Buenos Aires. Andr\u00e9\" w:st=\"on\">em Buenos Aires. Andr\u00e9<\/personname> comprara aquele chap\u00e9u assim que chegaram na capital da Argentina. Por coincid\u00eancia o casal chegou em \u00e9poca de copa do mundo e Andr\u00e9 viu a estr\u00e9ia <\/p>\n<\/div>\n<div>da Argentina na Copa com aquele chap\u00e9u.<\/p>\n<\/div>\n<div><span>\u00a0\u00a0 <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>Andr\u00e9 volta ao quarto e o telefone toca. Juliana atende e \u00e9 sua m\u00e3e perguntando se est\u00e1 tudo bem. A mo\u00e7a responde que sim e que Andr\u00e9 estava no apartamento para pegar suas \u00faltimas coisas. A m\u00e3e de Juliana diz que qualquer coisa que ela precisasse era s\u00f3 telefonar quando Juliana come\u00e7a a ouvir uma m\u00fasica e diz que tem que desligar e em pouco tempo estaria l\u00e1.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cMas devo dizer que n\u00e3o vou lhe dar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>O enorme prazer de me ver chorar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Meu peito t\u00e3o dilacerado\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A m\u00fasica \u00e9 \u201chow deep is your love\u201d do Bee Gees. Juliana entra no quarto e Andr\u00e9 est\u00e1 sentado na cama king size de casal comprada em quinze presta\u00e7\u00f5es numa \u00e9poca de dureza. Juliana senta ao lado e pergunta se est\u00e1 tudo bem. Andr\u00e9 disfar\u00e7adamente limpa as l\u00e1grimas e responde que sim. Fica um tempo em sil\u00eancio e Juliana lembra que deu o cd com a m\u00fasica no primeiro dia dos namorados deles casados.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 agradece o presente e diz que a esposa sempre soube escolher muito bem seus presentes. Se lembra do anivers\u00e1rio de um ano de casamento quando ele chegou em casa do trabalho e encontrou o caminho da porta at\u00e9 a sala todo iluminado com velas e na mesa de jantar um bilhete escrito: \u201cte amo\u201d. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana tamb\u00e9m recorda o momento e diz que colocou \u201chow deep is your love\u201d para tocar e fez um strip para ele em cima da mesa do jantar.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 continua as lembran\u00e7as e lembra dela no anivers\u00e1rio de dois anos com camisa do Corinthians molhada se exibindo para ele e ele lhe amarrando e passando nutella sobre seu corpo. Juliana apenas sorri e o sil\u00eancio volta.<span>\u00a0 <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O presente a todo o momento voltava e lembrava a eles o momento que passavam.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cAli\u00e1s<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Aceite uma ajuda do seu futuro amor<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Pro aluguel<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Devolva o Neruda que voc\u00ea me tomou<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>E nunca leu\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana volta para a sala para terminar de encaixotar suas coisas e Andr\u00e9 sai do quarto atr\u00e1s dela com um livro na m\u00e3o do Chico Buarque perguntando se poderia levar. Juliana responde que sim e que dera esse livro a ele em seu \u00faltimo anivers\u00e1rio. Andr\u00e9 solta um \u201cah \u00e9\u201d e volta ao quarto.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Rela\u00e7\u00e3o \u00e9 assim: voc\u00ea lembra de tudo do in\u00edcio em todos os detalhes e as coisas que ocorrem no fim, quando parece que um n\u00e3o ouve e n\u00e3o nota mais o outro respondemos com um \u201cah \u00e9\u201d quando lembrados.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O dia vai passando e Andr\u00e9 acaba de arrumar a mala e Juliana de encaixotar as coisas. Ela telefona para um frete que fica de pegar tudo da manh\u00e3 seguinte. Ela ainda teria que voltar mais uma vez ao local.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 sai do quarto com a mala dizendo que est\u00e1 tudo pronto e Juliana lhe mostra um viol\u00e3o. Andr\u00e9 d\u00e1 um sorriso e diz \u201cmeu viol\u00e3o!!\u201d. Juliana emenda \u201cacredita que estava no quarto de h\u00f3spedes o tempo todo? E voc\u00ea achando que tinha perdido\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 agradece, senta no sof\u00e1 com o viol\u00e3o e d\u00e1 umas arranhadinhas at\u00e9 conseguir tirar uma m\u00fasica, a \u00fanica que ele sabia tocar e cantar.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cSe lembra quando a gente<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em><span>\u00a0<\/span>Chegou um dia acreditar<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em><span>\u00a0<\/span>Que tudo era pra sempre<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em><span>\u00a0 <\/span>Sem saber que o pra sempre<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em><span>\u00a0 <\/span>Sempre acaba\u201d<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9 se deu conta do que tocava e cantava e achou melhor parar se levantando para ir embora. Andr\u00e9 e Juliana ficam frente a frente com o peito querendo explodir, dizer um monte de coisas.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aquelas coisas que todo mundo que j\u00e1 se separou um dia na vida quis dizer, aquela cena de cinema quando no \u00faltimo momento, no acender das luzes da sala do cinema o mocinho diz que ama a mocinha e faz declara\u00e7\u00e3o de amor do tipo que a sala todo aplaude.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a vida n\u00e3o \u00e9 assim. Andr\u00e9 e Juliana n\u00e3o s\u00e3o mocinhos de filme, s\u00e3o pessoas como qualquer uma que um dia se apaixonaram, acharam que tudo seria pra sempre, mas o pra sempre, sempre acaba.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andr\u00e9: Ent\u00e3o&#8230; \u00e9 isso..<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana: \u00c9..\u00e9. isso..<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Olham-se mais um pouco e Andr\u00e9 entrega sua chave a Juliana. A mo\u00e7a n\u00e3o ag\u00fcenta e deixa rolar todas as l\u00e1grimas que segurou todo o dia. Andr\u00e9 ao ver aquela que um dia pensou ser o amor de sua vida tamb\u00e9m chora e lhe abra\u00e7a. Ficam uns segundos abra\u00e7ados, ele lhe d\u00e1 um beijo na testa e vai embora sem falar nada. <\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Juliana ainda fica por uns momentos no apartamento vazia. Olha todos os cantos lembrando como foi feliz l\u00e1 e vai embora batendo a porta.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que acontece depois? Andr\u00e9 e Juliana chegam ao fim mostrando que \u201ce foram felizes para sempre\u201d n\u00e3o existe, o pra sempre, sempre acaba, mas a gra\u00e7a \u00e9 continuar tentando ser feliz, sofrendo at\u00e9 acertar em algum momento. Era isso que os dois tentariam agora, separados, mas unidos nesse sentimento. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Buscar a felicidade.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cEu bato o port\u00e3o sem fazer alarde<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Eu levo a carteira de identidade<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>Uma saideira, muita saudade<\/p>\n<p><\/em><\/div>\n<div><em>E a leve impress\u00e3o de que j\u00e1 vou tarde\u201d<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, a coluna de contos &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;, do compositor Aloisio Villar, retorna com mais uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o. 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