{"id":10794,"date":"2012-12-29T09:19:00","date_gmt":"2012-12-29T11:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/buraco-da-fechadura-abrindo-os-trabalhos\/"},"modified":"2012-12-29T09:19:00","modified_gmt":"2012-12-29T11:19:00","slug":"buraco-da-fechadura-abrindo-os-trabalhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/12\/buraco-da-fechadura-abrindo-os-trabalhos\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &quot;Abrindo os Trabalhos&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-bIJ7FJdwHlE\/UNpADs1WSkI\/AAAAAAAAHiA\/TDpuqeS3IkY\/s1600\/3fde25535573f.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"414\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/3fde25535573f.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Neste s\u00e1bado, <b>a coluna &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;, do compositor Aloisio Villar<\/b>, faz a &#8220;avant-premiere&#8221; de uma nova coluna de contos do compositor, tendo o samba como tema: a &#8220;Enredo do Meu Samba&#8221;. Esta coluna, aqui e ali, ter\u00e1 tamb\u00e9m alguns textos de minha lavra, tendo sempre o carnaval como tema.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i><u>Abrindo os Trabalhos<\/u><\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 manh\u00e3 no Rio de Janeiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais um carnaval passou e, com ele, surgiram as cinzas. Ainda se ouve um tamborim aqui ou ali. Pessoas embriagadas bambeiam pelas cal\u00e7adas cantando \u201coh abre alas que eu quero passar\u201d, outras fantasiadas dormem com a cara no ch\u00e3o enquanto cachorros lambem seus rostos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O carnaval passou, mas o ver\u00e3o ainda n\u00e3o. O Rio de Janeiro, fevereiro e mar\u00e7o, o Rio quarenta graus ferve. As praias lotadas aproveitam o fim da esta\u00e7\u00e3o mais brasileira de todas. Homens jogam futev\u00f4lei, mulheres se bronzeiam em micro biqu\u00ednis, crian\u00e7as brincam nas areias da cidade maravilhosa&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E ainda se respira um pouco carnaval. Estamos naquele per\u00edodo entre a quarta-feira de cinzas e o s\u00e1bado das campe\u00e3s. Nos barrac\u00f5es as escolas agraciadas refazem seus carros. Nos grandes condom\u00ednios, hot\u00e9is de luxo ou favelas o desfilante orgulhoso cuida para que sua fantasia esteja t\u00e3o linda quanto no desfile.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Seja sexta colocada, quinta, quarta, terceira ou vice-campe\u00e3, o orgulho \u00e9 o mesmo: voltar a pisar no templo sagrado do samba. Para a campe\u00e3 mais orgulho ainda: o de colocar a faixa de vencedora do carnaval no peito.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 um trabalho \u00e1rduo, amigo leitor, de muito sacrif\u00edcio. Para muita gente o carnaval dura apenas quatro dias, mas a algumas pessoas o carnaval dura o ano inteiro. Assim que o vento leva as cinzas as escolas de samba j\u00e1 come\u00e7am a tratar do enredo do ano seguinte. Em agosto muitos j\u00e1 est\u00e3o dando seu suor, seu sangue durante horas e horas em barrac\u00f5es e ateli\u00eas para que tudo saia certo, para vermos\u00a0o maior espet\u00e1culo da Terra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o apaixonados pelo carnaval, por suas escolas de samba, por aqueles oitenta e dois minutos na super escola de samba da Sapuca\u00ed ou mesmo quarenta e cinco minutos na Intendente Magalh\u00e3es. Que vivem carnaval o ano inteiro, que respiram o carnaval como suas vidas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Carnaval&#8230; Escolas de samba&#8230; A muita gente isso \u00e9 coisa muito s\u00e9ria. Escolas, muitas quase centen\u00e1rias, que exalam cultura, conhecimento, forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter. Muitas vezes uma escola de samba \u00e9 escola da vida, ensina, educa, cria. Muitos desses que chegaram pequenininhos ao samba s\u00f3 observando os bambas com seus instrumentos, vozes, rodopios e cria\u00e7\u00e3o com o tempo tomam seus lugares e perpetuam a hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nascem, crescem, envelhecem e passam seus \u201can\u00e9is de bamba a que mere\u00e7a usar\u201d. O samba \u00e9 uma hist\u00f3ria constru\u00edda por her\u00f3is. Her\u00f3is que nunca pegaram em armas, mas pegaram em surdos de marca\u00e7\u00e3o, tamborins, caixas, microfones, bandeiras, rodopiaram na arte de um mestre-sala ou vigor de uma baiana e encantaram multid\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E essas pessoas t\u00eam um lugar pra se reunir. Ou melhor, tinham.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um bar de dois andares, meio que caindo aos peda\u00e7os, de mais de sessenta anos por quais passaram muitos dos maiores sambistas desse pa\u00eds. Teve seus dias de gl\u00f3ria, o apogeu como adoram dizer alguns carnavalescos, mas mesmo n\u00e3o sendo mais t\u00e3o suntuoso ainda cultiva sua tradi\u00e7\u00e3o e charme.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em um canto do Est\u00e1cio, o ber\u00e7o do samba, existe ou existia o \u201ccasa de bamba\u201d. Ponto de encontro de sambistas da velha e nova\u00a0gera\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na casa, os muitos quadros espalhados contavam a saga do carnaval carioca. Algumas engra\u00e7adas, outras nem tanto, mas cada uma ajudava a contar um pouco do que era nossa folia. Traziam gargalhadas, saudades, amarguras, motivos para mais uma cerveja e come\u00e7o de batucada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Naquela manh\u00e3 n\u00e3o era diferente. A fila j\u00e1 era grande na frente do bar esperando que ele abrisse. O term\u00f4metro, ainda de manh\u00e3, marcava quase quarenta graus. Era o tipo de calor onde o pastor deixava as irm\u00e3s irem ao culto de\u00a0biqu\u00edni\u00a0e os\u00a0frequentadores\u00a0j\u00e1 reclamavam da demora da abertura. Queriam come\u00e7ar os trabalhos com uma gelada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quem se dava bem com isso era o Feitosa, o dono da banca de jornal. Enquanto o bar n\u00e3o abria o homem vendia jornais, que falavam da pol\u00eamica do resultado do carnaval. Muita gente discordou do resultado e desconfiava de marmelada. A campe\u00e3 daquele ano desfilou com um carro a menos, pelo mesmo quebrar na entrada da avenida. A maldi\u00e7\u00e3o do setor 1 &#8211; e a promessa era de muitas vaias no s\u00e1bado das campe\u00e3s.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A maioria xingava a escola com todos os nomes impublic\u00e1veis poss\u00edveis e um homem t\u00edmido tentava defend\u00ea-la quando chegou o Almeidinha, gar\u00e7om do bar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os homens reclamavam pelo atraso de Almeidinha, que pediu desculpas e abriu o estabelecimento. O gar\u00e7om abriu e os cerca de dez homens que estavam na fila foram sentando nas mesas e pedindo cervejas e aperitivos, enquanto discutiam o resultado do carnaval.\u00a0Almeidinha serviu a todos enquanto os outros gar\u00e7ons foram\u00a0chegando. O bar j\u00e1 estava cheio quando o dono do bar adentrou o recinto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Manolo, um espanhol na altura dos sessenta anos de idade, chegou com cara de poucos amigos e n\u00e3o queria muita conversa com ningu\u00e9m. Foi para o balc\u00e3o ver algumas anota\u00e7\u00f5es e comentou com Almeidinha que era para cobrar todos os fiados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bem, no come\u00e7o eu falei que o samba tem ou tinha um local pr\u00f3prio, explicarei agora o porque.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Meu nome \u00e9 Pedro de Oliveira e meu carnaval fora uma porcaria. Separei-me h\u00e1 pouco de minha mulher e achei que seria uma boa viajar na folia de Momo. Fui para B\u00fazios.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O problema \u00e9 que muitos pensaram como eu. Peguei mega engarrafamentos na ida e na volta. A casa era uma droga, n\u00e3o tinha \u00e1gua, faltou luz, a praia cheia de gringos e l\u00e1 minha filha ligou toda contente para contar que a mam\u00e3e estava namorando.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Voltei furioso, antes mesmo do carnaval acabar, e passei a ter\u00e7a-feira gorda comendo pipoca, bebendo cerveja (pelo menos era Chimay, belga) e vendo filmes do Chuck Norris. Decidi que dormiria at\u00e9 segunda-feira, quando voltaria ao trabalho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas antes disso me ligaram.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Era do jornal onde eu trabalhava e queriam que eu fizesse uma mat\u00e9ria sobre um bar que fecharia e viraria igreja evang\u00e9lica. Expliquei que isso hoje em dia era a coisa mais comum da cidade, at\u00e9 a Candel\u00e1ria em pouco tempo seria uma Universal, mas o meu chefe insistiu devido \u00e0 import\u00e2ncia do local.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dessa forma sa\u00ed naquele calor senegal\u00eas em dire\u00e7\u00e3o ao Est\u00e1cio ver\u00a0o tal bar. Dessa forma parei na \u201ccasa de bamba\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Cheguei ao bar, me apresentei como jornalista e perguntei a Almeidinha sobre o dono, pois faria uma mat\u00e9ria com ele. Os caras que estavam sentados em uma mesa comentaram <i>\u201cIh, olha o Manolo ficando importante\u201d, \u201cna certa querem a opini\u00e3o dele sobre a roubalheira do carnaval\u201d<\/i> e um senhor disse que foi diretor de harmonia da Unidos da Ponte e se eu quisesse podia entrevist\u00e1-lo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Cheguei em Manolo, apertei sua m\u00e3o me apresentando e comentei que queria fazer uma mat\u00e9ria com ele sobre a venda do bar para a Igreja Universal. Os gar\u00e7ons e freq\u00fcentadores do local ouviram o que eu disse e entraram em polvorosa. Rapidamente se aproximaram de mim, me olhando como se eu fosse um ET.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Perguntei qual era o problema e todos, em grande confus\u00e3o e gritaria perguntaram a Manolo o que ocorria. O dono do estabelecimento confirmou a informa\u00e7\u00e3o e disse que na noite anterior acertara a venda do bar para a igreja. O bar vinha tendo preju\u00edzo e uma d\u00edvida enorme foi produzida. N\u00e3o havia outro jeito.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um \u201csil\u00eancio ensurdecedor\u201d tomou conta do bar. O clima era de uma escola rebaixada ap\u00f3s a apura\u00e7\u00e3o. Senti-me como um ser malvado que contava a crian\u00e7as no Natal que Papai Noel n\u00e3o existia. Perguntei a Manolo se poderia fazer a mat\u00e9ria com ele e o homem respondeu que sim.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aos poucos os freq\u00fcentadores voltavam a se sentar naquele sil\u00eancio e os gar\u00e7ons a servi-los. Manolo virou para mim e pediu que fosse ao segundo andar com ele. Dessa forma come\u00e7ava meu contato com o mundo do samba. Justo no fim de parte de sua hist\u00f3ria, mas que me traria personagens que dariam um livro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quer saber que personagens? A partir de janeiro aqui no blog \u201cOuro de Tolo\u201d, na coluna \u201cEnredo do Meu Samba\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Feliz ano novo.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, a coluna &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;, do compositor Aloisio Villar, faz a &#8220;avant-premiere&#8221; de uma nova coluna de contos do compositor, tendo o sambaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30,290],"tags":[29],"class_list":["post-10794","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-buraco-da-fechadura","category-enredo-do-meu-samba","tag-contos"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}