O carnaval de 2019 marca o final de um jejum de 25 anos no desfile do Grupo Especial: pela primeira vez desde 1994 haverá um enredo dedicado exclusivamente a um Orixá, no caso a homenagem a Xangô feita pela Acadêmicos do Salgueiro.

Anteriormente, o último enredo voltado diretamente às religiões afro-brasileiras tinha sido o da Grande Rio de 1994 enfocando a Umbanda – único sobre esta religião até os enredos da Alegria da Zona Sul e da Leandro de Itaquera (SP), também para este ano – esta, inclusive, desencavou uma história de uma Umbanda autônoma em Ubatuba que eu não tinha conhecimento.

Sabendo-se que o samba tem uma ligação umbilical com as religiões afro-brasileiras, seja em ritmos, seja na origem, seja no fato de muitos integrantes das escolas professarem estes ritos, chega a ser inesperado se pensar que os desfiles do principal grupo do carnaval carioca ficaram um quarto de século sem abordar dedicadamente um enredo a um Orixá ou a um conjunto de Orixás.

A ideia deste artigo é tentar explicar um pouco os motivos desta longa ausência – que em grupos inferiores não somente não houve este hiato como, nos últimos anos, vem crescendo esta opção como enredo. Além de citar alguns desfiles que tangenciaram o tema, mas optaram por não explicitar ou centralizar a ligação com as religiões de matiz africana.

O primeiro fator são os enredos patrocinados. Em especial a primeira década deste século foi marcada por enredos onde empresas pagaram para associar suas marcas às escolas, em um momento onde ainda não havia por parte destas exigências de contrapartidas como transparência  e governança.

De certa forma estes enredos acabaram ocupando espaços que eram preenchidos por outras demandas. A própria Grande Rio, que fez dois enredos entre 1992 e 94 com esta temática, jamais voltaria a sequer tangenciar o tema desde então. 

Segundo, e de certa forma complementar ao primeiro, vejo a necessidade das escolas do Especial se normatizarem à sociedade. Como escrevi em artigo de 2017, as escolas de samba sempre buscaram se adequar ao poder constituído e se normatizar a partir dos ditames estabelecidos.

Terceiro, e não menos importante: o avanço do neo-pentecostalismo na sociedade do Rio de Janeiro. Não é segredo que o estado do Rio de Janeiro talvez seja o estado da federação onde estas denominações religiosas evangélicas tem maior influência na sociedade e na política.

Também não é segredo que não somente o samba como as próprias religiões de matiz africana são considerados “inimigos” por estas denominações evangélicas, de forma que uma espécie de “submersão” se faz esperada para que possa haver a sobrevivência. Vale lembrar que o atual prefeito da cidade é representante de uma das maiores instituições neo-pentecostais brasileiras, a Igreja Universal do Reino de Deus.

Com estes três fatores citados, parece explicado porque as escolas de samba do Grupo Especial (com maior visibilidade) se afastaram de sua raiz religiosa e rítmica.

De certa forma explica o movimento ocorrido em seus primórdios: em que pese a origem do samba ter bastante a ver com as religiões de origem africana, somente na década de 60 do século passado é que começamos a ver Orixás sendo citados em enredos. Apenas nos anos 70 tivemos enredos dedicados exclusiva e abertamente a Orixás.

Longe de esgotar o tema, mas apenas propondo uma reflexão, elenco abaixo alguns desfiles do Grupo Especial desde então que tangenciaram os Orixás, mas sem dedicar um enredo específico ou, mesmo, citando-os diretamente. Temos nesta lista inclusive a Portela, que jamais fez um enredo de temática africano-religiosa em sua história.

1 – Unidos da Tijuca 1996

Zumbi dos Palmares é o homenageado neste enredo, e o samba toca na questão dos Orixás em um dos refrães. Em desfile complicado, com quebra de carros, vale a lembrança.

2 – Beija Flor 2001

O enredo sobre Agotime toca muito fortemente na questão religiosa, e o vice campeonato acabou sendo bastante injusto.

3 – Viradouro 2002

No extremamente confuso enredo, o “Viramundo” do título, o Senhor das Ruas, na verdade era o Orixá Exu. Mas ficou bastante ocultado no desenvolvimento. Meio que vergonha da escola…

4 – Salgueiro 2007

O enredo sobre as rainhas africanas tinha uma base religiosa forte, evidenciada especialmente no samba.

5 – Império Serrano 2009

A reedição não era um enredo sobre Iemanjá. Era sobre o mar e a relação do ser humano com o oceano, apesar das inúmeras referências à Rainha do Mar.

6 – Portela 2012

O enredo sobre as festas da Bahia tinha relação com Clara Nunes e com todo o sincretismo religioso baiano. 

7 – Salgueiro 2014

Este é um caso curioso. O enredo em si não tinha uma pegada religiosa típica – apenas no início – mas o samba, com sua “lista de presença” no refrão central, acabou trazendo o enredo para um viés religioso.

8 – Salgueiro 2016

O “Malandro Batuqueiro” nada mais era que Zé Pilintra (inclusive consta que o patrocinador do enredo, uma famosa pessoa física, fez assim por conselho dessa entidade), mas oficialmente era um malandro das ruas…

9 – Portela 2017

O único desfile campeão nesta lista abria com Oxum, Orixá das águas doces. Em um ano com muitos problemas, a escola iniciava seu desfile pedindo permissão ao Orixá – e deu tudo certo.

Este ano, além do Salgueiro a Portela tem referências aos Orixás em seu enredo sobre Clara Nunes. Finalizo deixando uma sugestão de “esquenta” da bateria à agremiação da Tijuca.

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

11 Replies to “25 Anos sem Orixás”

  1. Muito bom! Os enredos do Salgueiro em 2014 e da Viradouro em 2002 eu não consigo entender até hoje, rsrsrsrs! Embora eu não seja uma pessoa tradicionalista (no sentido de achar que enredos de temática internacional, por exemplo, são “menores”), ainda assim, acho extremamente importante as escolas de samba valorizarem as suas origens, é questão de se perceber e de se reconhecer como um expoente da cultura afro-brasileira e isso, inclusive, evitaria crises de identidade e permitiria um direcionamento da festa por um viés mais cultural!

  2. Lembrando da Barroca Zona Sul que vai um enredo sobre Oxossi pra vim de vez pro especial, No acesso 2 a Imperador falando de Exu, baseando numa obra de Jorge Amado

  3. Eu sei que este samba em específico aborda muito as religiões em geral, mas o samba para o enredo da Mocidade de 1995 (Padre Miguel, Olhai Por Nós) fala sobre religiões africanas e toca nos orixás. Segue o link da letra: https://www.youtube.com/watch?v=qkPaueDvUdY e o trecho da letra que fala sobre orixás (que é bem genérico) (o trecho que fala sobre orixás está em 1:30 – primeira passada e 3:40 – segunda passada):

    Vieram os negros africanos
    com seus tambores, orixás
    e suas manifestações

    É genérico, mas toca nos orixás.

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