No segundo texto da série “Curiosidades da Folia”, o Ouro de Tolo relembra alguns casos em que uma obrigatoriedade dos desfiles causou muita dor de cabeça às escolas de samba: a cronometragem. Pontos – ou até mesmo décimos – perdidos fizeram muita falta a algumas agremiações e chegaram a decidir uma campeã. Isso quando o regulamento não foi rasgado… Vamos relembrar?

1960 – Título dividido…

Numa conturbada maratona de desfiles, diversas agremiações não cumpriram a exigência de cronometragem, mas, após protestos do lendário Natal da Portela, nenhuma escola foi punida, o que deu a Águia o título. O Salgueiro protestou na Justiça, e, ciente de que seria derrotado, Natal propõs que a pontuação fosse esquecida e o campeonato fosse dividido. No fim, cinco agremiações foram declaradas campeãs: além de Portela e Salgueiro (este campeão pela primeira vez na história), Mangueira, Império Serrano e Unidos da Capela.

1988 – Piada de mau gosto…

Na única vez em que o carnavalesco Luiz Fernando Reis assinou um carnaval pela Imperatriz, em 1988, deu tudo errado. O enredo “Conta outra, que essa foi boa”, sobre as piadas que tanto marcam o cotidiano do Brasil desde os primeiros anos, não teve um bom samba e, segundo consta, não havia muitos recursos para o barracão. Para piorar, choveu torrencialmente durante o desfile da Gresil, e, após uma série de problemas, a escola estourou em mais de dez minutos o tempo máximo permitido. A Imperatriz terminou a apuração em 16º e último lugar, mas um acerto de bastidores anulou o rebaixamento daquele ano, e em 1989 a escola deu a volta por cima: foi campeã com o enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós”.

1990 – Pecado no finalzinho

Mordida com o 11º lugar do ano anterior, a Verde e Rosa rasgou o asfalto da Sapucaí com o enredo “E deu a louca no Barroco”, em 1990. Com excelentes samba-enredo e bateria, a Mangueira se credenciava a brigar pelo título quando problemas com alegorias, que se embolaram perto do recuo da bateria, fizeram a escola se atrasar. A evolução foi para o beleléu e, para desespero de Fernando Pamplona, que chegou a soltar palavrões durante a transmissão da TV Manchete, a Manga estourou o tempo em quatro minutos, o que a fez perder cinco pontos e sair da briga pelo título – terminou em oitavo lugar. A imagem do desespero de Dona Zica na dispersão comoveu os amantes do samba.

1992 – E se o carro não tivesse se incendiado…?

Com um excepcional carnaval desenvolvido por Max Lopes para o enredo “E a Magia da Sorte Chegou”, sobre os ciganos, a Vermelho e Branco de Niterói entrou com tudo na passarela e, embalada pelo melhor samba do ano, deu a impressão de que brigaria pelo título de 1992. Mas um incêndio de grandes proporções no carro que homenageava a Sibéria causou pânico e obrigou os bombeiros a entrarem no meio da pista. A alegoria em chamas foi deixada na Apoteose, e, claro, a evolução foi para o espaço. Não houve mortos, mas a Viradouro estourou em 13 minutos o tempo regulamentar de 80, o que a fez perder o mesmo número de pontos. O desfile foi tão bom, que a Viradouro ainda terminou em nono lugar entre 15 escolas, sem qualquer ameaça de rebaixamento.

1996 – Demorou, e abalou…

Depois do amargo vice-campeonato de 1995, a Majestade do Samba cerrou os dentes e pisou com força na Sapucaí para dar a volta por cima com um enredo sobre a Música Popular Brasileira. Mas foi uma apresentação problemática, e a quebra de uma alegoria atrapalhou a evolução. Durante a transmissão da TV Manchete, o narrador Paulo Stein alertou a possibilidade de atraso, e o diretor de Harmonia Tijolo jurou que a escola estava tranquila. Mas, apesar do desespero final dos integrantes da Harmonia e da correria dos componentes, a Portela terminou seu desfile com 1h22, e, com problemas para a retirada dos elementos da dispersão, Viradouro e Mocidade foram atrapalhadas. Com os dois pontos perdidos, a Águia ficou numa modesta oitava colocação.

2003 – Salgueiro, vermelho… Infarta o coração da gente…

A escola fez uma auto-homenagem em seus 50 anos, e passeou por grandes momentos de sua história. O popular samba foi defendido por garra por Quinho, e a bateria ganhou mais um Estandarte de Ouro sob o comando do saudoso Mestre Louro. Tudo certo? Nem tanto… O samba só começou a ser cantado quando os cronômetros já marcavam quatro minutos, e a escola fez uma evolução bastante lenta para quem precisava terminar sua apresentação em 1h20. Não deu, e o Salgueiro finalizou o desfile com 1h24, o que a faria perder 0,8 ponto na apuração. Ninguém confirmou oficialmente, mas o que se disse à boca pequena na época foi que a escola estava planejada para desfilar em 85 minutos e não em 80… Fica o dito pelo não dito.

2006 – Campeonato jogado fora

A Acadêmicos do Grande Rio vinha crescendo nos carnavais anteriores e era uma das favoritas ao título de 2006, com um enredo em homenagem à Amazônia. No entanto, uma lenta apresentação da comissão de frente e a grandiosidade das alegorias emperraram a evolução, e a Tricolor de Caxias excedeu em um minuto o tempo regulamentar de 80. Os dois décimos perdidos fizeram muita falta, já que na apuração houve igualdade com a Vila Isabel, que se sagrou campeã no quesito desempate: Samba-Enredo.

2011 – Filme dramático

Oito anos depois, a Academia voltou a sofrer com a cronometragem. Depois de realizar, na opinião de muitos, o melhor desfile daquele ano, a Vermelho e Branco teve problemas nas manobras de alegorias, e se enrolou na evolução. Os diretores de Harmonia optaram por não dar vazão os componentes para não criar buracos na pista, e a bateria não parou no segundo recuo. Mesmo assim, a Vermelho e Branco excedeu em dez minutos os 82 regulamentares, o que a fez entrar na apuração com um ponto a menos. No fim, o Salgueiro ficou em quinto e, caso não tivesse perdido o ponto, teria sido terceiro. Imaginem se tivesse tido uma evolução correta…

2013 – Libélula presa

A escola fazia bom desfile ao exaltar a cidade de Cuiabá, com direito a duas baterias diferentes na pista, o que por si só já seria um desafio para a evolução dos ritmistas. Mas uma alegoria ficou presa na torre de TV, o que fez a Verde e Rosa ficar parada por intermináveis minutos. Quando o carro, enfim, venceu o obstáculo, o presidente Ivo Meirelles optou por não fazer a escola apressar demasiadamente o passo, alegando que de qualquer maneira pontos preciosos seriam perdidos em Evolução. No fim, a Mangueira estourou o tempo em seis minutos e acabou punida em 0,6 ponto. Ficou classificada em oitavo, e, sem os décimos perdidos, teria ficado em sétimo. Houve ainda quem dissesse que os cronômetros ainda foram disparados com atraso, o que teria amenizado o prejuízo.

2016 – Não caprichou

Sem desfilar no Grupo Especial de 2006, a Caprichosos de Pilares permaneceu por uma década no Acesso A, onde vinha tendo dificuldades. Em 2015, uma lufada de esperança se deu quando o carnavalesco Leandro Vieira fez um grande trabalho. Mas em 2016, sem Leandro e com uma crise financeira aprofundada, um desastre aconteceu. Sem que as fantasias chegassem completas à Sapucaí, com alegorias modestas e danificadas, e número insuficiente de baianas, a Caprichosos não teve como desenvolver a contento o enredo em homenagem aos estrangeiros que fizeram sucesso no Brasil, tendo como destaque o ex-jogador sérvio Petkovic. Com um desabafo do intérprete Thiago Brito e componentes tendo de se compor na concentração, a escola se atrasou e excedeu o tempo regulamentar em quatro minutos. Resultado: foi rebaixada em último lugar.

2018 – Como assim para menos?

De volta à elite no ano passado, a querida escola da Serrinha fez um enredo sobre a China e deu seu recado na pista. Mas, de forma bizarra e inacreditável, cumpriu seu desfile ANTES do tempo mínimo: quando o último componente atravessou a linha final, os cronômetros ainda apontavam 63 minutos, dois a menos do que o exigido. Os dois décimos perdidos não salvariam a escola do rebaixamento na apuração, mas ficou o insólito da situação… Depois do Carnaval, um acerto de bastidores acabou com o descenso, salvando o Império e a Grande Rio.

2018 – “Eu não vim aqui para explicar…”

O último desfile também viu a Acadêmicos do Grande Rio sucumbir na obrigatoriedade da cronometragem. Uma das alegorias no enredo em homenagem a Chacrinha quebrou, e a Tricolor tentou até o último instante fazer o carro desfilar, mas não foi possível. O problema é que isso empacou a evolução da escola, que ainda apresentou uma certa indecisão na entrada da bateria no segundo recuo. No fim, a Grande Rio estourou em cinco minutos o tempo de desfile, o que a fez perder 0,5 ponto na apuração. Outras despontuações fizeram a Tricolor sair rebaixada para o Acesso após a leitura das notas, mas a escola acabou salva num acordo.

É claro que em outras divisões e até mesmo no Grupo Especial houve casos em que a cronometragem pesou nos desfiles, mas, como no caso do post anterior, se escrevêssemos tudo o que já aconteceu, seria um texto interminável. Com isso, convido os leitores a complementarem esses casos na área de comentários.

Até o próximo post da série!

20 Replies to “Curiosidades da Folia: Cronometragem, uma Obrigatoriedade que já deu o que falar”

  1. Esse desfile de 2011 do Salgueiro é de dar agonia. Foi o gigantismo mais desnecessário que eu já vi. Os carros tinham largura máxima. Lembro do carro do King Kong com a Valesca Popozuda de banana que não fazia a curva nem por decreto. O desespero do Luís Roberto na transmissão chega a dar dó.
    Em SP a aguia de ouro homenageou João Nogueira, atrasou 1 minuto, perdeu 1,2 pontos e ficou em terceiro 0,3 atrás da Mocidade. Se não tivesse atrasado ganharia o carnaval com 0,8 de diferença em cima da Mocidade.

  2. Só um adendo, Migão, quando a libélula se enroscou na torre, a Mangueira já tinha estourado o tempo. O fato da libélula só fez retardar mais, mas a escola já estava prejudicada, não sei se pelo gigantismo da escola ou se pela demora com o lance das duas baterias. Mas no momento em que a libélula se enroscou, já tinha estourado.

    1. Foram três alegorias que deram problemas, e quando a da libélula prendeu na torre, a escola estava no limite de estourar. Provavelmente ela perderia um ou dois décimos, mas acabou perdendo muito mais.

  3. Fred, permita uma correção: em 2006 a Grande Rio estourou apenas 1 minuto ao invés de 2. Naquele ano a punição era de 0,2 para quem estourasse o tempo – exemplo a Rocinha, que perdeu 1,2 por ter estourado seis minutos.

    Lembrando de outros casos: como esquecer a Lins Imperial no Acesso A de 2008 que vinha desfilando bem e se estabacou toda na pista depois que o penúltimo carro quebrou quase chegando a dispersão. Saldo final: estourou em 5 minutos. Também teve o problemático desfile da Em Cima da Hora na Série A de 2015 que estourou 4 minutos do tempo máximo.

  4. A Unidos da Tijuca estourou em dois minutos, acho, o seu belo desfile sobre a língua portuguesa em 2002.

    Até hoje me pergunto como seria o resultado sem os problemas ocorridos nos desfiles da Viradouro em 1992 e do Salgueiro em 2011…

    Caxias que me desculpe, mas esse atraso da Grande Rio em 2006 impediu um dos títulos mais absurdos da história…

    Império Serrano ano passado é simplesmente inacreditável. Inaceitável. Não sei se é falta de profissionalismo, de competência, de amor pela escola ou tudo junto.

  5. Boa noite! Fazia tempo que não escrevia aqui mas vaí aí a contribuição sobre os causos envolvendo a cronometragem no carnaval paulistano:

    – Em 3 ocasiões distintas a campeã do carnaval teria sido outra se não tivesse estourado o tempo. Em 85 a Barroca Zona Sul teria ganhado se não tivesse estourado o tempo, o que além de custar o campeonato custou a participação dela na Marquês de Sapucaí (visto que a campeã daquele ano desfilaria no Rio, como ocorreu com a vencedora, a Nenê de Vila Matilde). Em 2002 a X-9 Paulistana derrapou na evolução e perdeu pontos preciosos que teriam feito ela empatar com a campeã daquele ano, a Gaviões da Fiel (já que na época não havia critérios de desempate). Já o caso mais recente foi em 2013, quando a Águia de Ouro venceria o campeonato caso não perdesse pontos. Quem gostou disso foi a Mocidade Alegre, que conseguiu um bicampeonato (transformado em tri em 2014).

    – A Gaviões já tem uma história de ódio com a cronometragem: mesmo estourando o tempo ela foi campeã em 1999 (a punição havia sido anulada posteriormente antes da apuração). Já no traumático desfile de 2004 a escola acabou estourando, derrubando o cronômetro e saindo da busca do tricampeonato para a luta contra o rebaixamento. Em 2005 problemas com alegorias fizeram a liga “dar um boi” para que a escola não estourasse novamente o tempo, fazendo um desfile campeão sobre o Padre Anchieta. E em 2006 um novo rebaixamento com direito a estouro do tempo…

    – O primeiro rebaixamento do Camisa (1996) também foi ocasionado pela punição em relação a cronometragem. Isso gerou surpresa em todo mundo devido ao peso e ao poder que o camisa (mesmo em tempo turbulento) tinha ainda. Quem se safou foi a então pequena Tom Maior, que ganhou uma sobrevida em 1997.

    – Em sua estreia no Grupo Especial em 2005 a Mancha Verde teve um quê de Viradouro 92: mesmo estourando o tempo e sendo punida com 4 pontos terminou em uma boa colocação e teria chances de ir para as campeãs se nada tivesse ocorrido. A Tatuapé em 2015 também poderia ter ido para as campeãs caso não tivesse estourado o tempo em 1 minuto, o que a fez lutar nota a nota contra o rebaixamento.

    1. esqueceu da peruche em 2011, que além de estourar o tempo (a bruxa tava solta esse ano) deixou duas alegorias na concentração, quando o regulamento previa que a escola tinha q ter no mínimo 4 carros, pois ela teve problemas com a largura do abre-alas (tava solta mesmo…)

      1. Corrigindo foi o terceiro carro q emperou e atrasou a escola, ela perdeu dois pontos perdidos por desfilar com uma alegoria e três pontos por estourar o tempo

  6. Dois dos desfiles mencionados aqui: Águia de Ouro em 2013 e Acadêmicos do Tatuapé em 2015, eu estava no Anhembi. O desfile da Águia foi sensacional. Início da manhã de uma madrugada chuvosa, mas a escola da Pompéia rasgou a avenida de uma forma que a deixou como um das favoritas. Esse estouro de tempo foi, na minha opinião, a mais emblemática forma de perder um carnaval. A Tatuapé em 2015 no setor G (final da pista) e vi o desespero dos diretores de harmonia para tirar a escola. E a última “ala” era a famigerada “ala dos convidados”, que pra mim não tem utilidade alguma e quase sempre atrapalha.

    PS: Esse ano, o presidente da Mocidade Unidade da Mooca (Grupo de Acesso 1) já divulgou em suas redes: quer sair na ala dos amigos do presidente? Escolhe uma ala e vai!

Deixe uma resposta para Fred Sabino Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.