Inspirado no primeiro texto da série “Curiosidades da Folia”, sobre as passagens efêmeras de alguns intérpretes por escolas de samba, o Ouro de Tolo apresenta agora um post sobre os casamentos de apenas um Carnaval entre famosos carnavalescos e agremiações no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Como sempre vale frisar, o texto não aborda todos os casos já ocorridos, mas os mais relevantes – podem usar a área de comentários para lembrar outros. Vamos a eles?

Rosa Magalhães na Beija-Flor

Depois de trabalhar com Fernando Pamplona no Salgueiro, a brilhante trajetória de Rosa como carnavalesca começou, vejam só, na Beija-Flor de Nilópolis. Em 1974, como já vinha sendo praxe naqueles tempos, a agremiação escolheu um enredo (“Quase no ano 2000”) no qual exaltava os “feitos” do regime militar, e Rosa foi chamada para desenvolvê-lo. Não há imagens do desfile disponíveis em boa qualidade, mas fato é que a escola terminou aquele Carnaval na sétima colocação entre dez agremiações, o que garantiu a permanência no primeiro grupo.

Fernando Pinto na Mangueira

Depois de passar pelo Império Serrano – pela qual foi campeão em 1972 – e desenvolver apenas um enredo na Mocidade Independente de Padre Miguel, o genial Fernando Pinto tirou um ano sabático em 1981 e fechou com a Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval-1982. De imediato veio a curiosidade de como um carnavalesco ousado e transgressor se sairia numa agremiação tão tradicional. Fernando escolheu o enredo “As Mil e Uma Noites Cariocas”, sobre a vida noturna na Cidade Maravilhosa. Foi um desenvolvimento de enredo correto, com boas fantasias e alegorias, mas desta vez Fernando não pegou “na veia”. Além disso, o samba não foi dos melhores, e houve problemas de evolução do meio para o fim do desfile. O quarto lugar entre 12 escolas até que saiu de bom tamanho, e rapidamente o carnavalesco voltou para Padre Miguel, onde viveu o auge da carreira até morrer precocemente em 1987, num acidente.

Viriato Ferreira na Vila Isabel

Naquele mesmo ano de 1982, Viriato Ferreira fez seu único trabalho na Unidos de Vila Isabel. O carnavalesco, que havia feito brilhante trabalho como figurinista na Beija-Flor com Joãosinho Trinta, e depois um marcante voo solo desenvolvendo os enredos na Portela, com direito a título em 1980, decidiu mudar de ares. Depois de um péssimo desfile em 1981, no qual foi rebaixada na pista e devolvida ao primeiro grupo após um acerto de bastidores, a Vila apostou no enredo “Noel Rosa e os poetas da Vila nas batalhas do Boulevard”, lembrando sobre o grande poeta e o bairro no qual se consagrou. A escola abria os desfiles, e o conjunto desenvolvido teve diversas nuances de cores, ao contrário do ano anterior, quando Viriato foi criticado pelo “mar azul” na Portela. Se não foi um desfile extraordinário, o décimo lugar foi exagerado. Viriato só voltaria a assinar um desfile em 1991, na Imperatriz Leopoldinense. O carnavalesco chegou a trabalhar com Rosa Magalhães no desenvolvimento do enredo de 1992 mas seu estado de saúde se agravou e no mesmo ano morreu por complicações em decorrência da Aids.

Arlindo Rodrigues na União da Ilha

Em 1986, o carnavalesco multicampeão por Salgueiro, Mocidade e Imperatriz desenvolveu na União da Ilha o enredo “Assombrações” e adaptou seu estilo clássico ao perfil jovial da Tricolor insulana. Com bom humor e a excelência costumeira no acabamento estético da escola, a Ilha de Arlindo fez excelente desfile ao falar de assombrações como os navios portugueses para os índios, o leão do Imposto de Renda e até o FMI. Num ano muito equilibrado, o quinto lugar pode ser considerado um bom resultado. Arlindo ainda assinaria um último carnaval na Imperatriz em homenagem a Dalva de Oliveira, mas morreria em 1987, também por complicações pelo vírus da Aids.

Luiz Fernando Reis no Salgueiro

Conhecido pelos enredos críticos e irreverentes na Caprichosos de Pilares, o carnavalesco vinha de um desfile problemático com a Imperatriz, que terminou o desfile de 1988 na última colocação e só não foi rebaixada após um acordo nos bastidores. Contratado pelo Salgueiro, Luiz Fernando e seu parceiro Flávio Tavares conceberam o belíssimo enredo “Templo Negro em Tempo de Consciência Negra”, que lembrava os desfiles salgueirenses com essa temática. Nas palavras do próprio ao “Ouro de Tolo”, foi seu melhor trabalho plasticamente, e a Academia fez um excelente desfile, com um samba dos melhores do ano. No entanto, problemas de evolução atrapalharam o Salgueiro, que, num dos anos de melhor nível de desfiles em todos os tempos, ficou em quinto lugar.

Maria Augusta na Beija-Flor

Após o Carnaval de 1992, Joãosinho Trinta encerrou seu ciclo na Beija-Flor após divergências em relação ao projeto Flor do Amanhã. A agremiação de Nilópolis, então, recorreu à antiga carnavalesca da União da Ilha para conceber e desenvolver o enredo “Uni-duni-tê, a Beija-Flor escolheu: é você”, sobre o universo infantil. Os carros mastodônticos e estética mais “pesada” típicas de João deram lugar a alegorias mais leves e um visual mais colorido, até porque o enredo exigia isso. Fato é que a Beija-Flor fez um belo desfile e ficou classificada numa boa terceira colocação, mas Maria Augusta jamais atuaria como carnavalesca novamente depois de 1993.

Max Lopes na Estácio de Sá

Carnavalesco campeão por Mangueira e Imperatriz, Max Lopes sempre foi reconhecido pelos trabalhos extremamente cuidadosos e de grande requinte em alegorias e figurinos. Mas em 1997, contratado pela Estácio de Sá, Max não teve meios para desenvolver de forma adequada o enredo “Através da fumaça, o mágico cheiro do carnaval”, sobre a influência dos aromas e perfumes. A escola vivia grave crise financeira, além de estar sem quadra, e quase não conseguiu desfilar. Resultado: apesar do esforço hercúleo, a Vermelho e Branco foi rebaixada na 13ª colocação entre 16 escolas – perdeu quatro pontos em obrigatoriedades (um por levar menos de 100 baianas e três por merchandising).

Jorge Freitas na Portela

Já consagrado como bicampeão do carnaval paulistano com a Gaviões da Fiel, o carnavalesco foi chamado pela Portela para liderar em 2004 a reedição do enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia”, que dera à Majestade do Samba o título em 1970. A Portela fez um belo desfile, tanto nos quesitos plásticos como nos de pista, mas a apuração rendeu à escola um contestado sétimo lugar – para os críticos, a escola merecia estar entre as seis agremiações do Desfile das Campeãs. Curiosamente, nunca mais o carioca Jorge Freitas assinaria um desfile de uma agremiação no Rio, mas ainda seria laureado com mais dois títulos no Grupo Especial de São Paulo (2010, pela Rosas de Ouro, e 2016, pelo Império de Casa Verde), além de mais duas conquistas do Acesso pela Gaviões (2005 e 2007). 

Joãosinho Trinta na Vila Isabel

Já debilitado por problemas de saúde, João ainda participou do desenvolvimento do enredo “Singrando em mares bravios… E construindo o futuro” para a Vila Isabel, que em 2005 voltava ao Grupo Especial depois de cinco anos. Mas o gênio não conseguiu seguir ativo nos trabalhos até o fim da preparação. De qualquer forma, a Vila permaneceu na elite com um bom desfile, terminando em décimo lugar, sem riscos de novo rebaixamento.

Milton Cunha na Porto da Pedra

O já experiente carnavalesco fez uma rápida, porém bem sucedida, passagem pela Unidos do Porto da Pedra em 2007. O enredo “Preto e Branco em Cores” homenageava a África do Sul e o líder Nelson Mandela, e foi bem transmitido em alegorias e fantasias na Sapucaí. A escola de São Gonçalo, que era considerada na fase pré-carnavalesca uma provável rebaixada, manteve-se no Grupo Especial com uma décima colocação contestada – para vários críticos, deveria ter ficado mais bem classificada.

Rosa Magalhães na União da Ilha

Depois de um acesso contestado, a Tricolor insulana tentaria cumprir a difícil tarefa se manter no Grupo Especial em 2010. Para isso, contratou Rosa Magalhães, que havia deixado a Imperatriz após 17 anos. A carnavalesca desenvolveu o enredo “Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis”, e a missão da Ilha foi cumprida com louvor, com um belo desenvolvimento de enredo e uma exibição elogiada nos quesitos plásticos. Mesmo terminando num contestado penúltimo lugar, a Tricolor foi bem avaliada pela crítica e, de fato, poderia ter ficado mais bem colocada.

Rosa Magalhães na Mangueira

Após a passagem pela Ilha, a carnavalesca teve um casamento muito frutífero com a Unidos de Vila Isabel, pela qual obteve um quarto lugar, um terceiro e um título. No entanto, após uma crise na escola da Zona Norte, Rosa mudou de endereço de novo e foi para a Estação Primeira de Mangueira. O enredo “A festança brasileira cai no samba da Mangueira” foi bem dividido, mas, com alguns problemas de acabamento de alegorias e um samba que não explodiu, a Verde e Rosa fez um desfile apenas regular e terminou em oitavo. Uma imagem que ficou daquele desfile foi – mais uma vez – uma alegoria mangueirense batendo contra a torre de TV devido a problemas no mecanismo que abaixaria o topo do carro.

Paulo Barros na Mocidade

Três vezes campeão com a Unidos da Tijuca, Paulo Barros aceitou proposta da Mocidade Independente de Padre Miguel, que tentava se recuperar após alguns desfiles decepcionantes. Paulo desenvolveu o enredo “Se o mundo fosse acabar, me diz o que faria se só lhe restasse um dia?”, e a Verde e Branco até cresceu de patamar, mas ainda de forma insuficiente para brigar pelo título: terminou em sétimo lugar, e o carnavalesco rumou para a Portela.

 

15 Replies to “Curiosidades da Folia: as passagens-relâmpago de carnavalescos pelas escolas”

  1. Também teve a curiosa situação do Alexandre Louzada na Vila Isabel em 2006, chegou, foi campeão e tchau. Igual ao Marcus Ferreira no Império Serrano campeão do Acesso em 2017 e demitido. Vale lembrar também a rápida mas marcante passagem de Paulo Barros pelo Paraíso do Tuiuti em 2003, e as já não tão bem sucedidas de Mauro Quintaes e Alex de Souza na Mocidade em 2006 e 2007, respectivamente, e do agora badalado Jack Vasconcellos no Império Serrano no mesmo ano de 2007.

    E falar em passagens-relâmpago de um carnavalesco por uma escola é falar de Roberto Szaniecki, que trabalhou na União da Ilha em 1997, Viradouro em 2001, Mangueira em 2009 e Portela em 2011, e em todos esses trabalhos o final sempre foi meio complicado…

    1. Por algum motivo o Polonês me lembra a música “Pavão Misterioso”. Vai ver que é porque é um mistério a proeza de deixar tanto desfile incompleto…

  2. Lembrando mais alguns:

    Mario Monteiro na Portela (1993)
    Chico Spinoza na Viradouro (2002)
    Luiz Fernando Reis na Imperatriz (1988)
    Alexandre Louzada na Ilha (1987)
    Alexandre Louzada na Estácio (1994)
    Alexandre Louzada na Porto da Pedra (2004)
    Lilian Rabelo no Império Serrano (1995)
    Mário Borrielo no Império Serrano (1999)
    Mário Borrielo na Ilha (2000)
    Mário Borrielo na Tradição (2005)
    Mario Monteiro na Viradouro (2006)

    1. Ótimos exemplos! O do Luiz Fernando eu até coloquei no texto. A Lílian Rabello já havia passado pelo Império antes, nos anos 1980, por isso não citei.

    2. Boas lembranças. Só um reparo em relação ao Louzada, que assinou dois desfiles – e não um – na Porto da Pedra. Os desfiles do polonês eu não coloquei simplesmente porque ele ficou mais conhecido justamente por esse troca-troca constante de escolas, utilizei mais carnavalescos conhecidos por passagens mais duradouras por algumas escolas e tiveram trabalhos esporádicos em outras. Abraços

      1. É verdade, o Louzada também fez a Porto em 2005. A Lilian Rabelo vale o registro como carnavalesca solo no Império… nos anos 80 ela assinou com o ex-marido.

  3. Raul Diniz no Camisa em 1990;
    Jorge Freitas na Pérola Negra em 2007;
    Mauro Quintaes na Gaviões em 2008;
    Fabio Borges na Tucuruvi em 2009;
    Chico Spinoza na Tom Maior em 2011;
    Cahê Rodrigues na Vai Vai e Max Lopes na Gaviões em 2013;
    Sidnei França na Vila Maria em 2017.

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