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Como prometido, aqui a segunda parte da discussão sobre o protagonismo (ou não) das escolas de samba no Carnaval do Rio em textos publicados na Folha de São Paulo. Agora, a opinião do colunista Luiz Augusto Simas, cuja opinião é a de que as agremiações perderam essa posição em relação aos blocos de rua.

Os astros do Carnaval

O crescimento do Carnaval de rua, facilmente verificado no Rio de Janeiro (em proporções impactantes) e em São Paulo, deixa no ar a impressão de que o protagonismo da festa está mudando de mãos. As centenas de blocos de rua, arrastando multidões impensáveis há pouco tempo, parecem dizer, entre fanfarras, que a bastilha das escolas de samba caiu e um novo regime se vislumbra na corte do rei Momo.

O desfile das escolas de samba nunca primou pela espontaneidade ou pelo caráter de subversão da ordem, dois elementos normalmente associados ao Carnaval. O concurso entre as agremiações é, ao contrário, caracterizado pela ideia de disciplina, adequação aos regulamentos, mediação do poder público e outros fatores que o caracterizam como uma manifestação enquadrada em princípios relativamente previsíveis.

A despeito disso, as escolas de samba se legitimaram brilhantemente como espaços de exercício da alegria, construção de identidades e renovação de laços comunitários das camadas populares urbanas.

Acompanhando o furdunço há muitos anos, tenho a nítida percepção de que boa parte do perfil comunitário das escolas de samba foi para o beleléu. As agremiações patinam na encruzilhada entre o discurso do apego à tradição e os ditames de certa lógica empresarial. Esta última enxerga os desfiles mais como um evento rentável, de acordo com as expectativas do mercado, do que como manifestação cultural não mensurável pela circulação de capitais.

Palco para a exibição de celebridades duvidosas e para egolatria de certos carnavalescos, engolida pela supremacia do aparato visual em detrimento do sambista, as escolas de samba têm hoje dificuldades de renovar as relações de pertencimento com o meio do qual saíram.

Fantasias despropositadas, que mais parecem trambolhos difíceis de carregar, rigor marcial dos passos marcados e enquadramento em ensaios exaustivos geram desfiles repetitivos, que mais se assemelham a paradas militares, tão emocionantes quanto uma corrida de cágados sob efeito de Rivotril. As exceções honrosas confirmam a regra.

O Carnaval de rua, enquanto isso, atraí o folião que, livre das amarras, quer apenas brincar sem o risco de encontrar pela frente um diretor de harmonia mal-humorado que o enquadre aos berros. Tal fenômeno, é claro, também tem lá as suas contradições e percalços. Há que se constatar, todavia, que a efusão carnavalesca anda muito mais próxima das esquinas do que dos sambódromos, com seus lugares mais nobres ocupados por turistas pouco afeitos ao meio do samba.

O Carnaval é uma festa dinâmica, caracterizada pela constante invenção de novas formas de apropriação dos territórios e circulação de saberes. Corsos, grandes sociedades e ranchos já se sentiram soberanos e hoje são apenas pálidas lembranças das folias de outrora, sem qualquer expectativa de experimentar a vitalidade perdida. A roda da folia, afinal, gira e surpreende.

As escolas de samba continuam com o protagonismo nas mídias tradicionais. São elas que rendem manchetes de jornais, vendem seus desfiles para o mundo inteiro e consagram celebridades de ocasião como musas da festa. Certamente aparecerão como representantes de um Brasil dos sonhos, nas cerimônias de abertura da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio.

O protagonismo que as escolas estão começando a perder é outro, e muito mais grave. Com a diluição dos laços de pertencimento entre a agremiação e seus componentes, os grandes e anônimos astros da festa é que estão pulando fora dos sambódromos: nós, os foliões.

Foto: UOL